Caminhamos para uma sociedade cada vez mais utilitarista,
vazia e sem sentido. Não há nenhuma novidade nisto. E já que perguntar não
ofende, eu me atrevo a perguntar: qual é o lugar da poesia na sociedade do
cansaço? Essa questão vem me interpelando já tem um tempo e eu resolvi escrever
este texto para tentar responder esta pergunta. Se é que ela tem resposta.
Segundo o filósofo sul coreano Byung-Chu-Han nossa época é
marcada pela passagem da sociedade disciplinar onde o (tú deves) que era
imposto de fora para dentro dos indivíduos. Enquanto a realidade contemporânea é
marcada pelo excesso de positividade onde os imperativos da vez são o (nós
podemos), (acredite em você), (você é capaz), (você pode).
Para o filósofo nossa época sofre desse excesso de
positividade que domina o indivíduo contemporâneo e o torna escravo de si
mesmo, provocando um esgotamento neural (depressão, ansiedade, insônia, etc..) surge
assim um fenômeno que ele chamou de “sociedade do desempenho”. Temos que estar
constantemente produzindo, monetizando, gerando lucros. Deste modo, a
escravidão que antes era imposta de fora para dentro, agora ela foi
internalizada pelos indivíduos que se escravizam de dentro para fora.
Nunca na sociedade as pessoas foram tão ativas, muito por
conta das palavras de ordem como “projeto”, “motivação”, “iniciativa”,
“eficiência”, “flexibilidade”, “empreendedorismo”. Então há nos dias de hoje a
valorização do indivíduo: workaholic. Que é um termo chique para se referir a
quem se mata de trabalhar.
Nesta lógica, tudo que é feito precisa ter um valor imediato,
então o sujeito do desempenho pós-moderno não está submisso a ninguém a não ser
ele próprio. Passou a ser empresário de si mesmo. E isso causa uma espécie de
esgotamento. Um cansaço que não é físico e sim, metafísico.
Então, nessa sociedade utilitarista a poesia acaba perdendo o
seu espaço cada vez mais, pois, ela não possui uma utilidade imediata. Penso
que por isso, a poesia é tão mal compreendida ultimamente, principalmente entre
os mais jovens. Até porque, quando lemos um livro de poesia não lucramos na
bolsa, não aumentamos o nosso rendimento bancário, não fazemos renda extra, ou
seja, na sociedade do cansaço o lugar da poesia acaba sendo o não-lugar.
Na Grécia antiga a poesia foi fundamental para a construção
da sociedade Grega. Em algum momento histórico isso foi perdido. Hoje a poesia
se tornou artigo restrito de uma minoria, reflexiva. Desaprendemos o ócio, a
humanidade ainda pagará o preço por isso.
Em breve viveremos uma nova barbárie. Desculpem meu pessimismo
apocalíptico.
A poesia nunca foi tão necessária como nos dias atuais, pois
ela é uma forma de antídoto contra a utilidade radicalizada da nossa época. Por
isso, é tão importante as ínfimas aulas de literatura que ainda restam nas
“grades” escolares. Movimentos como os slans, os saraus, recitais e todas as
manifestações artísticas que se abrem como clareiras da resistência
contemporânea. Na nossa sociedade do cansaço qualquer lugar em que se cultiva o
desimportante é extremamente necessário.
No livro 'Vamos comprar um poeta' de Afonso Cruz, que li
recentemente, existe uma sociedade dominada pelo materialismo, onde tudo é
metrificado, e calculado em proporções matemáticas. Inclusive as gramas do
espinafre, que a personagem principal comeu, desde os miligramas de saliva despejadas
pelo beijo que seu pai deixou em seu rosto, antes de ir embora. Nesse mundo
hipotético, as famílias possuem artistas como animais de estimação. Desse modo,
a personagem principal pede ao pai um poeta, o que acaba trazendo uma série de
questionamentos sobre o lugar da arte em meio a sociedade extremamente
utilitarista.
Eu sigo defendendo a poesia, a filosofia e o ócio
contemplativo. Tudo isso, como uma espécie de antídoto contra a radicalização
da vida utilitária e do neoliberalismo que através da sua ideologia, escraviza
o indivíduo da maneira mais cruel, sem que ele se dê conta disso. Em outras
palavras, vamos trabalhar para viver e não viver para trabalhar e gerar lucro
somente. Valorizo momentos que estou com a minha filha, minha família, e também
os momentos em que não faço nada. As coisas mais importantes da vida não são
quantificáveis e calculáveis, elas são para encantar simplesmente. Alias como
diz Manoel: "As coisas que não têm importância, são as que mais me
importam. O resto é vaidade. O resto é quase nada."
