sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Estamos perdidos?

 


Caro leitor, faz muito tempo que não escrevo algo por aqui, já que, conforme o tempo vai passando vamos aprendendo a escutar mais do que falar, pensar mais do que dizer. Convenhamos, um mundo onde as pessoas falam sobre tudo, a toda hora e a todo momento, faz crescer o valor do silêncio. 


As coisas andam tão absurdas que o ato de pensar e não correr para a rede social e comunicar aos demais o que foi pensado é como se fosse algum tipo de sacrilégio. É preciso ter opinião sobre tudo, se não você não é levado a sério. Temos que ser “youtuber-influencer”? Estamos perdidos?

 

Já faz um tempo que venho maturando as minhas ideias com a convicção de que só poderei escrever algo que realmente preste quando estiver lá com os meus sessenta anos, caso eu chegue lá, caro leitor. Torço para não passar disso. A vida demasiada longeva não costuma ser algo animador. Nesse meio tempo eu venho tentando transformar as minhas corriqueiras ideias e experiências, em poesia. Confesso que o meu propósito é procurar, procurar até encontrar a razão da minha procura, em outras palavras, quero inflar tanto a palavra até que ela estoure em poesia.

 

A filosofia contemporânea me parece um tanto quanto cansada, não raro, ela acaba tendo que se escorar em outras vertentes do pensamento para que assim seja validada pela comunidade científica. Acredito que produzir filosofia na contemporaneidade é algo desafiador. Uma hora dessas o pensamento filosófico há de ser repreendido por aqueles que não conseguem filosofar. Desde Sócrates foi assim.

 

Pelas experiências que eu tive, percebi que as pessoas se zangam facilmente quando você mostra o seu poder crítico, quase sempre querem tirar uma lasquinha disso. Também querem mostrar que pensam criticamente, porém, sem ter as bases corretas para tal, por isso cometem erros grosseiros, talvez pela ânsia de filosofar da noite para o dia.


Faz algum tempo que venho alertando sobre os perigos de ser auto didata, digo em qualquer coisa que seja. O Brasil viu de perto o caso do Olavo de Carvalho que deturpava tudo que tocava, e ainda assim conseguiu influenciar tanta gente, acredito que isso só foimpossível pelo fato do Brasil ser um país onde há muitas pessoas sem pensamento crítico e sem o cultivo do saber filosófico.


Como no caso do Monark que por ignorância e um pouco de prepotência juvenil e mal caratismo, defendeu a existência de um partido nazista, coisa tão absurda, que só jovens neoliberais com fetiche em liberdade defenderia. Creio que até hoje ele não tenha entendido tamanha repercussão. Na cabecinha dele ele só se expressou incorretamente. Nesse caso o cancelamento veio a calhar, mas não sejamos tão otimistas, ele só foi extirpado do podcast por causa de dinheiro das empresas patrocinadoras, não foi pelo bom senso ou algo do tipo. O Monark foi engolido pela mão invisível do mercado, algo que ele tanto defendeu em suas falas vomitativas.


Quem dera eu tivesse a clareza de um Cioran (filósofo romeno), eu já teria sido cancelado há muito tempo. Não por burrices como do Monark, mas por ousar a pensar a partir da fatalidade. Nem sempre consigo, mas as vezes tenho uns “insides” muito pertinentes, porém o niilismo e a minha preguiça existencial não me permitem fazer mais do que eu faço. Tenho bons momentos de clareza, no restante do meu tempo eu bebo cerveja e escrevo poesias.


Tenho a impressão de que o ser humano caminha num imenso labirinto sem ter o fio para conduzi-lo. Se estamos perdidos; isso não sei caro leitor, só tenho uma vaga impressão sobre isto. Na verdade eu só escrevi este texto para dizer que estou de volta aqui no blog, e é só isso, se chegou até aqui, aquele abraço, deixe seu like, compartilhe, ative o sininho e tchau!


(Alex Domingos)

 

segunda-feira, 25 de maio de 2020

O fim do Brasil?






“O passado é lição para se meditar e não para se reproduzir”. (Mário de Andrade, prefácio Interessantíssimo)

“Sempre enfezei ser eu mesmo. Mau mas eu”. (Oswald de Andrade, Ponta de Lança)



Gostaria que fosse só mais um texto meu falando sobre algum conceito inquietante da filosofia. Talvez teria falado algo sobre o pensamento Descolonial de Mignolo, ou sobre a questão do “Entre Lugar” discutida por Silviano Santiago, porém, no Brasil de hoje é impossível não falar do cenário político em que (sobre)vivemos.

Adoraria que o Filósofo Voltaire fosse brasileiro e presenciasse o que estamos vivendo hoje na política brasileira. No meio de suas ironias gênias, certamente exclamaria: “Écrasez I´Infâme”, ou seja, (esmagai o infame*). No caso, o (des)governo brasileiro. Sem dúvidas o Brasil se encontra hoje em seu ponto mais baixo. Neste ano, chegamos ao fundo do poço umas trezentas vezes, pois lidamos com duas pandemias: o covid-19 e a burrice.

Os intelectuais mostram, nós mostramos, o mundo mostra milhões de vezes o quanto quem votou no Bolsonaro cometeu um erro, mas essas pessoas a que chamamos hoje gentilmente de “gado”, ainda defendem esse homem asqueroso. É impressionante o nível de burrice dessa gente verdinha e amarela. Esse (des)governo é um insulto a nossa inteligência, digo mais, se o cérebro do presidente fosse uma dinamite, ele sequer explodiria o seu chapéu.

Talvez estejamos pagando o preço por escamotearmos o nosso passado autoritário, já que fomos o único país da América Latina incapaz de lidar com o seu passado obscuro. Safatle nos lembra que o Brasil é um país onde nenhum torturador foi parar na cadeia, e que pelo contrário, nesse exato momento, na Argentina, mil torturadores estão presos.

Para Safatle, isto é o resultado da necro-política brasileira, que desde a ditadura reforça os mecanismos de extermínios. Neste raciocínio, não houve o desmonte, nem a desarticulação destes aparatos, nos tornando também o único país da América Latina onde se tortura mais do que se fazia durante a ditadura militar, existem estudos sérios sobre isso.

Por isso, é urgente que o povo brasileiro aprenda com a sua história, é necessário mexer nas feridas e meditarmos a história do nosso país para que ela não seja mais reproduzida, porque sim, ela está se repetindo constantemente ou como tragédia ou como farsa, e assim, vamos presenciando este espetáculo farsesco onde o presidente que não tem formação nenhuma em medicina, impõe que seus ministros da saúde receitem cloroquina aos portadores do covid-19. Pasmem vocês, isto já aconteceu antes na história deste país.

   Quando a gripe espanhola chegou ao Brasil e se espalhou pelos cortiços do Rio de Janeiro, no dia sete de Setembro de 1918, já eram mais de 50 contaminados, no dia 8 de outubro de 1918 já haviam 88 soldados contaminados na via militar. Olhem que coisa, no dia 10 de Outubro já havia no hospital militar 400 pessoas infectadas.

O trágico deste episódio farsesco é que no dia 10 de Outubro o diretor geral de saúde, Carlos Seidl reuniu outros cientistas, com a presença da imprensa, e pasmem vocês, para defender a “benignidade da gripe”.  

Nas suas palavras: “não é a influenza espanhola é uma gripezinha comum”. E em seguida falou que “era sensacionalismo histérico da imprensa”, aqui qualquer semelhança é mera coincidência? No Brasil parece que essa gripe matou entre 35 a 40 mil pessoas. As semelhanças não param por aí, foi aqui também que surgiu o charlatanismo.

Como não havia órgãos de controle como a Anvisa hoje em dia, as pessoas começaram a criar remédios miraculosos para a gripe que se alastrava. Um deles foi a “Grippina”, que é muito semelhante com a cloroquina de hoje, não tinha nenhuma comprovação científica que garantisse a sua eficácia, mesmo assim começaram a vender esses pseudo-remédios para conter a gripe, entre eles até cachaça com limão, canja de galinha, entre outros.

E os paralelos continuam. Chegaram a dizer nos EUA que o quinino, medicamento recomendado para a malária seria eficaz contra o vírus. Por isso, que durante a guerra foi criado um drink que é conhecido até hoje: a Gintônica, cujo ingredientes são basicamente o gin, e a água tônica que contém quinino, nem precisa dizer que no Brasil o preço do quinino disparou.

O auge da epidemia no Brasil foi de Setembro de 1918 à Janeiro de 1919, matando mais ou menos 40 mil pessoas. Então aquele dito que: a história se repete como tragédia ou como farsa mais uma vez se mostra verdadeira.

O que preocupa é que além de enfrentarmos uma pandemia, enfrentamos também um presidente lunático e paranóico, que precisa ser extirpado do poder e preso, caso isso não aconteça, talvez estejamos assistindo o fim do Brasil, ou quem sabe o fim da picada. 


(Alex Domingos)   


domingo, 17 de maio de 2020

O “Zaratrusta” dos Leões: Nietzsche virou profeta?







Hoje nação luta contra nação,
Estamos no tudo é permitido
Não se esqueçam de Zaratustra,
Será que Nietzsche virou profeta? Virou!


Música Filhos Rebeldes - Banda Leões de Israel



Poucos sabem disto, mas a minha curiosidade em ler o filósofo alemão Friedrich Nietzsche se originou antes mesmo de eu ingressar na faculdade de Filosofia. A primeira vez que ouvi falar desse autor, foi através da música Filhos Rebeldes da banda de reggae: leões de Israel. Há pouco tempo lembrei-me deste episódio e resolvi contar para vocês.

Eu não fiz a faculdade de filosofia especificamente por causa desta música, mas foi ela que me apresentou a este autor. E ao escutá-la pela primeira vez, fiz o que poucos regueiros e regueiras fizeram até hoje, fui pesquisar quem era o tal do Zaratustra, e quem era aquele camarada que se chamava Nietzsche, pois ao meu ver eles seriam as peças chaves para o entendimento correto da música.  Por isso afirmo, não basta ouvir reggae, é preciso entender aquilo que está sendo cantando, é preciso ler as obras clássicas que estão fora desse segmento e deste estilo.

A curiosidade não parou na rápida pesquisa que fiz do filósofo, ela me acompanhou. Resolvi ir à biblioteca e tomar emprestado o livro intitulado “Assim falava Zaratustra”. Eu não aconselho ninguém a começar por este, mas esse foi o primeiro livro do Nietzsche que li. 

Apesar de não ter entendido muita coisa na primeira leitura, recordo-me que este livro me marcou profundamente, visto que ele questionava muito do que eu acreditava até então. Neste livro, o autor além de sintetizar toda a sua teoria cosmológica e filosófica, evidencia a decadência do cristianismo e a sua “metafísica para verdugos”. Achei fantástico a maneira como Nietzsche pintava as suas obscuras imagens filosófico-poéticas e como ele conseguia vasculhar os escombros da filosofia em busca do além-do-homem. 

Comecei a entendê-lo melhor, depois da terceira leitura, somando com os estudos sistemáticos do livro além de obras complementares, mesmo assim, a cada releitura deste clássico sempre me deparo com algo novo, que ainda acrescenta muito em minha vida, o livro é um clássico. Mesmo assim sempre aparecem aquelas pessoas que nunca leram um livro de filosofia tentando me ensinar aquilo que elas não sabem, para estas eu sempre deixei o meu riso.

Costumo frisar que se a filosofia ou qualquer outro tipo de conhecimento não contribui para a vida, se torna algo banal. Neste sentido, Nietzsche pode ser considerado o filósofo da vida. Os cristãos e os regueiros precisam ler mais esse pensador.

Como eu não gosto de ler somente aquilo que concordo, eu tenho a terrível mania de ler também aqueles livros “malditos” que me lançam no abismo e me arrancam da zona de conforto, não parei mais de ler este autor, cada livro uma sensação diferente e contraditória se manifestava, sensações que somente os leitores “desarmados” de suas convicções podem vivenciar. Nietzsche nos lembra que as pessoas de convicções são perigosas.

Após todo esse tempo estudando filosofia e pesquisando principalmente os escritos de Nietzsche, (não mais por causa da música e sim pela indentificação que tive com a sua obra), assim lembrei-me da música do Leões e resolvi escrever este texto, já que o reggae e as obras filosóficas estão inteiramente presentes no meu cotidiano.

Além dos mais eu procuro escrever somente aquilo que eu poderia escrever, levando em conta minhas vivências, sensações, pulsões etc... Afinal de contas são elas que avaliam o mundo a minha volta, em outras palavras aquilo que temos de vida dentro de nós é o que em última instância avalia o nosso “em torno” e avalia o nosso mundo.   

Quando ouvi a música pela primeira vez me deixei levar pela melodia e pelo aparente, digo, aparente senso crítico do compositor, que parecia querer contar algo misterioso e oculto em sua letra, e o Zaratustra e o Nietzsche eram peças fundamentais para a compreensão da música, como dito antes. 

Hoje quando escuto percebo que sim, a música tem um swing legal, começa com uma virada soluçante de bateria e segue com uma linha marcante de contra baixo que percorrerá a música toda, mas isso em si não mascara que a letra é profundamente vaga, ambígua e equivocada. Sem contar o erro juvenil do vocalista ao cantar “Zaratrusta” ao invés de “Zaratustra” que de fato é o personagem literário de Nietzsche.  

Antes de entrar de fato na letra da música, é bom lembrar que a filosofia de Nietzsche não é algo a ser seguida, o pensador não anuncia “verdades imutáveis” como pretende a bíblia e os cânones morais.  O filósofo é extremamente crítico das filosofias que pretendem fornecer a verdade para o mundo, por isto, foi um dos primeiros pensadores a formular pergunta que interroga: “para quê a verdade?” ou “quem nos obriga a procurar a verdade?” Pronto, bastou isso para bagunçar todo o tabuleiro de toda filosofia. 

Você caro leitor não é obrigado a ler Nietzsche (deveria?), porém quando constroem uma música com erros bobos e inversão de conceitos, e mais que isso, quando alguns regueiros tentam te ensinar algo que sequer leram, eu preciso intervir e mostrar que existe um equívoco quanto a isso.

Objetivo deste texto é mostrar a errônea inserção de Nietzsche e Zaratustra nesta letra de reggae, erro que eu só percebi muitos anos depois de ter ouvido a letra pela primeira vez e cuja a única virtude é nos apresentar um grande pensador para os ouvintes amantes de reggae que não conheciam ou não conhecem esse filósofo. 

A música começa afirmando que “alguns pensam que a vida é um rio/que encontrará seu caminho/outros acham que é um sonho e caem na iniquidade/se esquecem de que é uma benção de capacidades infinitas”. Esta eu considero a parte “menos pior” da letra, que até então não diz muita coisa, pois é profundamente rasa e vaga, além de ser carregada de moralismo barato, e até aqui não acrescenta nada de concreto na vida do ouvinte. 

Dizer que as pessoas caem na iniquidade e que se esquecem que a vida é uma benção de capacidades infinitas, é dizer, à grosso modo, que temos que seguir os códigos morais de uma determinada religião, (seja ela qual for), e que é preciso que as pessoas sintam-se culpadas por suas condutas “más”, já que, cair na iniquidade pressupõe que não estão de acordo com as normas estabelecidas por essa religião ou até mesmo a sociedade, algo totalmente contrário ao que o Nietzsche defendia, calma já explico! As vezes me recordo de algumas coisas e fico pensando e até hoje não consigo entender como pude gostar de bandas como Tribo de Jah, Mato Seco e Ponto de Equilíbrio. Não consigo entender. 

A questão é: quem criou os valores? Quem foi o primeiro na história da humanidade a dizer que tal ação é boa e determinada ação é ruim ou má? É preciso entender que os valores são construções humanas, demasiado humanas e possuem uma história e que os códigos morais, não vieram diretamente do céu trazidos por Deus ou um anjo. Por favor leiam Genealogia da moral de Nietzsche que vocês irão entender. Até aqui tudo bem. Vamos a segunda parte da letra.

A pergunta que me fiz durante algum tempo é: porquê mencionar o filósofo nesta letra sem pé nem cabeça? Hoje percebo que as frases desta música vão totalmente contra aquilo que Nietzsche defendia. Mais adiante lançarei a minha hipótese, prometo não demorar muito, caro(a) leitor(a), antes vamos para a segunda parte da letra que piora um pouquinho: “a verdade cobre a terra/ assim como a água cobre o mar. Não fuja da suprema ordem/ nada disso vai adiantar.”


Primeiro que a verdade para o Nietzsche se trata de um preconceito moralista inventado para legitimar a superioridade de determinados valores metafísicos que de fato são muito cafonas e negam a vida. Ao meu ver os regueiros ainda são muito moralistas e ingênuos. Talvez Solano tenha escrito essa letra sabendo que poucos regueiros iriam ter senso crítico para poder questioná-la, talvez.

Resumindo: a verdade é joguinho de poder, Foucault também havia constatado isso. Nós, os bons, encontramos a verdade e quem não a segue é mal. Porém, é preciso enxergar que existem pensamentos tão elevados que nem precisam ser verdadeiros, visto que elevam o ser humano, elevam a vida, em certo ponto essa música nega a vida e exalta valores morais metafísicas supra-sensíveis que nem são tão bem definidos assim na música.  

O que seria suprema ordem? Somente essa frase daria alergia em Nietzsche, pois para ele a única coisa de superior é a vida, neste raciocínio não existem valores que transcendam a vida, pois é ela que em última instância avalia e cria os valores (ao menos deveria), ou seja, não existe suprema ordem, ou valores que sejam superiores a vida, “o cristianismo é o platonismo para o povo”. Estamos parados ainda no platonismo ingênuo, e o reggae tem sim um pezinho no cristianismo.


É bom lembrar que Solano Jacob é o autor da música e na versão de estúdio ele pergunta e responde logo depois: “será que Nietzsche virou profeta? Virou!”. Deste modo, segundo o compositor, Nietzsche havia se tornado um profeta, até certo ponto concordo que sim, mas não pelos motivos mencionados na letra.

Nietzsche em larga escala é uma espécie de anti-profeta e penso que o Solano Jacob foi no mínimo equivocado ao citar o pensador nessa música, confesso até que tenho dúvidas de que ele tenha realmente lido o “Zaratustra” inteiro. Acho que com o tempo ele deve ter percebido o erro que cometeu, tanto é que na versão ao vivo ao invés de falar “virou!”, ele sabiamente troca e canta “uou uou”. Será que se arrependeu? 

Mas aqui eu lanço a minha hipótese: Solano Jacob não estaria usando de uma ironia ao se referir a Zaratustra e a Nietzsche, como aqueles que atestaram a “morte de deus?”, ou o fim da metafísica? Consequentemente borrando os princípios caducos de bem e de mal e alertando para o perigo de uma sociedade em que os valores perderam o sentido? O niilismo não seria um hóspede sinistro a se combater? Eu quero muito acreditar que Solano Jacob pensou nesta possibilidade, pois seria bem mais coerente tanto com o reggae como com a filosofia nietzschiana.   


Para finalizar, acredito que o reggae deve abandonar a velha agenda e começar a construir um novo caminho. Existe um leque gigante de possibilidades para ser trabalhado e construído. É um desperdício insistir em velhas pautas. Vivemos em novos tempos, onde a internet e a virtualidade, a sexualidade estão presente em nosso dia a dia.

O reggae precisa acertar a mão sobretudo na crítica social que não deve ser feita de qualquer maneira e ficar atento as novas questões. Na nossa sociedade existem mudanças técnicas, econômicas, sociais, morais e políticas, entre outras.

É preciso ler, é preciso aprender a aprender e desaprender a nossa sociedade enquanto todo. O reggae precisa estar disposto a isto, mesmo que custe abrir mão de alguns valores tradicionais da cultura reggae.

Nos dias de hoje o virtual e a política são a tônica da nossa sociedade pós-moderna. É necessário diluir isso artisticamente e apresentar de uma forma poética, expressiva e com uma potência visceral para que isso faça as pessoas pensarem.


É preciso ler, é preciso aprender a aprender e desaprender a nossa sociedade enquanto todo, o reggae precisa estar disposto a isto, mesmo que custe abrir mão de alguns valores tradicionais da cultura reggae.

Nos dias de hoje o virtual e a política é a tônica da nossa sociedade pós-moderna. É necessário diluir isso artisticamente e apresentar de uma forma poética e expressiva para que isso faça as pessoas pensarem.

Não basta tocar reggae para aumentar o número de seguidores é urgente que se estimule as pessoas a pensarem por si mesmas. Mas e Zaratustra? E Jah? Nietzsche diria: - Jah está morto! Mas essa, ah! Essa, é uma outra conversa.
   
(Alex Domingos)

terça-feira, 23 de abril de 2019

Performance poética e alteridade através do espelho













Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta, As sensações renascem de si mesmas sem repouso, Ôh espelhos, ôh! Pireneus! Ôh caiçaras! Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro! Abraço no meu leito as melhores palavras, E os suspiros que dou são violinos alheios; eu piso a terra como quem descobre a furto Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos! Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta, mas um dia afinal eu toparei comigo...Tenhamos paciência, andorinhas curtas. Só o esquecimento é que condensa, E então minha alma servirá de abrigo.


Mário de Andrade. Poesias Completas. São Paulo: Martins Editora, 1955. p. 221.

A performance da boa poesia talvez seja, aquela que nos arranca um suspiro e nos faz calar por alguns segundos. Observar-se ainda, aquelas que fazem com que ergamos a cabeça, dando forma aos nossos mais íntimos pensamentos, assim olhamos para o alto em silêncio, pois, sua performatividade se propaga pelo corpo, e também é incorporada e experienciada pelo leitor, que já não é mais o mesmo que se colocou a ler a primeira frase.

Ora, se existem aquelas poesias da qual não nos resta mais nada, além do calar-se diante do termino da leitura, o silêncio é algo que merece ser evidenciado nesta relação performática com a poesia. Agambem, em seu “micro-texto”: (a ideia do silêncio), se vale de uma fábula da antiguidade para sublinhar a importância do silêncio, nela lê-se este apólogo:
Os atenienses tinham por hábito chicotear a rigor todo candidato a filósofo, e, se ele suportasse pacientemente a flagelação, poderia então ser considerado filósofo. Um dia, um dos que se tinham submetido a essa prova exclamou, depois de ter suportado os golpes em silêncio: ”Agora já sou digno de ser considerado filósofo!” Mas responderam-lhe, e com razão: “Tê-lo-ias sido, se tivesses ficado calado” [1].

Acredito que tanto a filosofia como a poesia se relacionam com a experiência do silêncio. Todavia, o senso comum concebe o silêncio como a ausência de som ou até mesmo de expressão, porém, ele – o silêncio tem muito a nos dizer. 

Como na fábula, onde não bastava o filósofo suportar pacientemente a flagelação, teria também que fazer a experiência do silêncio para tornar-se filósofo. Ainda, segundo Agambem: um belo rosto é talvez o único lugar onde há verdadeiramente silêncio [2]. O rosto carrega consigo a linguagem do silêncio, pois, é no silêncio que o rosto diz.

Isto me lembra das diversas vezes que algumas pessoas do meu círculo íntimo de amizade me olhavam, e esse olhar fazia com que eu soubesse exatamente o que elas gostariam de me dizer, não com palavras, mas com o silêncio que emanava do rosto. 

O rosto que me dizia algo, eram o rostos de outras pessoas, aqui, quando falo sobre a outras pessoas, ou o “outro” como manifestação da linguagem corporal, estabeleço a relação de alteridade, pois, alteridade pressupõe o “outro” ou “outrem”.

A alteridade indica a presença de um Outrem que não se anula na relação. Independentemente da verdade ou mentira que ele venha a dizer, o seu rosto já é expressão. Lévinas compreende que a alteridade, enquanto relação ética, é anterior a qualquer afirmação, seja ela verdadeira ou falsa. O signo verbal é posterior à expressão do rosto [3].

A relação de alteridade quando estou frente à outra pessoa, ainda que parecida, é distinta daquela relação de alteridade, quando estou frente a frente comigo mesmo, ou seja, através do espelho. Ao olhar no espelho, coloco-me face a face comigo mesmo, o que fica evidente é que, eu sou o outro de mim mesmo (alteridade). Assim, a distinção está na transparência deste olhar. 

Ora, a relação de alteridade, com uma pessoa distinta, não nos permite conhecer o outro como conhecemos a nós mesmos, (embora muitas vezes este conhecimento seja ficcional), por mais que o rosto da outra pessoa fale, algo ainda permanecerá velado. O que não ocorre, quando me coloco diante do espelho, onde não tenho nada para esconder de mim mesmo, e onde as glórias e imperfeições atravessam o espelho e tornam-se tão claras, como na poesia chamada retrato da escritora Cecília Meireles:

Retrato – Eu não tinha esse rosto de hoje/assim calmo, assim triste, assim magro/ Nem estes olhos tão vazios/Nem o lábio amargo./Eu não tinha estas mãos sem força/ Tão paradas e frias e mortas/ Eu não tinha este coração/ Que nem se mostra./ Eu não dei por esta mudança/ Tão simples, tão certa tão fácil: - Em que espelho ficou perdida minha face? [4]

No espelho lidamos com o óbvio, aqui com o qual não tivemos “tempo” de ter visto antes, talvez pela correria, vinda, desde muito tempo, através do jargão “time is Money”. Assim, nos perdemos no cotidiano, porém, é no espelho e em sua alteridade que procuramos a nós mesmos, esta questão nos assusta, a obscenidade do espelho nos assusta, como nas palavras de Boudrillard:

Quando as coisas se tornam demasiadamente reais, quando elas são dadas imediatamente, quando existem como realidade concreta, quando estamos neste curto-circuito que faz com que as coisas se tornem cada vez mais próximas, estamos na obscenidade [5].

A cada olhadela no espelho, em nossa face aflora a “realidade”, pois, a relação de alteridade está demasiadamente próxima, está logo ali, - no espelho. É nele que enxergamos as falhas e imperfeições que tanto aflige o ser humano, algumas pessoas pensam até em quebrá-lo, ou jogá-lo para longe. “Quebrar o espelho é deixar de ser para ser, transver [6].
O espelho remete a loucura, a loucura de nos vermos fora de nós mesmos. É esta loucura que o ator sente cada vez que entra no espaço da cena, ele cria uma imagem dentro e fora de si mesmo. Ele é e não é ao mesmo tempo. Narciso se apaixona pela própria imagem e perde a si mesmo. Tirésias, contudo, já havia predito ao belo narciso que ele viveria apenas enquanto não se visse [7].

Existe um trecho na música, “Índios”, da banda de rock brasileira, Legião Urbana, que dialoga magistralmente com esta poesia do Guimarães Rosa, na letra que é cantada por Renato Russo, evidencia a relação da sociedade com o espelho, na música ouve-se:

Quem me dera ao menos uma vez/provar que quem tem mais do que precisa ter/quase sempre se convence que não tem o bastante/ Fala demais por não ter nada a dizer/ Quem me dera ao menos uma vez/ Que o mais simples fosse visto/ Como o mais importante/ Mas nos deram espelhos/ vivemos num mundo doente [8].

A frase: “Fala demais, por não ter nada a dizer”, traz à tona novamente o tema do silêncio, que talvez se manifesta não quando não dizemos nada, e sim, talvez, quando dissemos tudo. Narciso se perdeu, por conta de ver seu reflexo espelhado na água, sua doença foi o espelho. De certa forma, o espelho é o reflexo de uma sociedade individualista e que presa no mais das vezes pelo seu próprio eu. Na maior parte, o que impera é a dificuldade de lidarmos com o espelho, por isso, me pergunto o porquê desta dificuldade?

Ora, estamos muito magros, ora estamos gordos em demasia, ora não suportamos o simples olhar, como naquela música do Engenheiros do Havaí que diz: “Só me acorde quando o sol tiver se posto/ eu não quero ver meu rosto antes de anoitecer”:

Quem olha um espelho conseguindo ao mesmo tempo isenção de si mesmo, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade é ele ser vazio, quem caminha para dentro de seu espaço transparente sem deixar nele o vestígio da própria imagem - então percebeu o seu mistério [9].

Contudo, nem todos mantêm uma relação de estranhamento quando se olha no espelho, como no conto “Os espelhos”, da Clarice, em que ela brinca com essa relação de alteridade diante do seu reflexo, visto que, há pessoas que ao mesmo tempo em que olham a sua face no espelho, conseguem a isenção de si, como se aquele rosto ali clamando por uma reflexão mais demorada, não quisesse dizer nada. Existe também aquelas pessoas que conseguem vê-lo sem se ver e quem entende sua profundidade sem ser vazio. Todas essas são diferentes perspectivas sobre a relação de alteridade do eu com o espelho. 

(ALEX DOMINGOS)



[1]AGAMBEM.idéia da prosa, p.110.
[2]AGAMBEM.idéia da prosa, p.112.
[3]CARVALHO.Alteridade e diálogo, p.110.
[4]MEIRELES.Ontologia poética, p.128.
[5]BAUDRILLARD. Senhas, p.30.
[6]BARROS.O livro sobre o nada.p, 123.
[7]ROSA. Primeiras histórias. p, 69.
[8]URBANA, Legião. Álbum Dois.Música 12.
[9] LISPECTOR,Os espelhos. Disponível em:<http://claricelispector.blogspot.com.br/2008/02/os-espelhos.html>. Acesso em: 05/07/15.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Onde é que há gente no mundo?





Tirando o cenário político brasileiro, nada me deixa mais intrigado hoje em dia, do que aquelas pessoas que querem ser interessantes o tempo todo, principalmente nas redes sociais. Talvez sejam assim, porque ainda não perceberam, que existe uma espécie de vazio escondido por trás da aparência enganadora das mídias sociais, que  muitas vezes maquiam as nossas faltas e nos transformam em joguetes de algoritmos que de longe "sabem" mais de nós do que nós mesmos.

Funciona assim, as interações que são feitas nas redes sociais são salvas pelos algoritmos e a cada click que damos, armazena mais e mais dados no sistema (cokies), que passa a “saber” cada vez mais sobre nós. É assim que os algoritmos comandam qual será o nosso próximo afeto. Segundo Zizek: “Independente das nossas diferenças meramente ônticas, participamos todos na mesma catástrofe ontológica”. Eu acrescentaria: não só ontológica como também virtual.

Nesse esforço para sermos interessantes o tempo todo, tem de tudo, desde aqueles que vivem postando, (SEM AO MENOS LER NA ÍNTEGRA), vários artigos ao longo do dia, porque a manchete a princípio é "legalzinha".Talvez, façam isso, para parecerem informados e relevantes, mas tem preguiça e não  leem a matéria toda, nem procuram entender as suas implicações e muito menos fazer comentários que sejam realmente interessantes, ainda chega a ser pior, em alguns casos escrevem como único comentário da publicação a palavra: “FATO”, não sei vocês, mas, eu tenho muito receio quanto a capacidade crítica destas pessoas, elas estão atrás somente daquelas que postam coisas sobre resiliência ou as frases do OSHO.

Também encontramos nas mídias sociais aquelas pessoas que necessitam chegar ao fim do dia e estar com seu status cheio de postagens, as vezes por trabalho, ou por que seu dia tenha sido realmente incrível, isso é totalmente compreensível, mas na maioria das vezes é uma tentativa de salvar o seu cotidiano tedioso. Muito comum hoje, mentir para si mesmo que o seu dia foi lindo, ao menos na aparência das redes sociais. 

Isto me faz pensar que na contemporaneidade cada vez mais precisamos da confirmação do outro para saber se a nossa vida é interessante, precisamos do vizinho para saber se a nossa grama é verde e não somos daltônicos. A consequência lógica é que: se necessitamos muito dessa confirmação é porque nossa vida por ela mesmo não é tão interessante assim. Nesta lógica, só vamos a praia não como fim último da ação, mas para mostrar-mos para os outros que viajamos nas férias.

As pessoas tentam desesperadamente, mas não é possível ser interessante o tempo todo, pois temos paixões, pulsões, desejos e emoções. De tal modo, que se a maioria de nós convivêssemos diariamente com nossos grandes ídolos (sim, aqueles que achamos interessantes de longe), ficaríamos profundamente decepcionados se os víssemos de perto, pois perceberíamos o quanto nós os idealizamos e o quanto eles podem ser um pé no saco.

Posso afirmar que as melhores experiências que eu passei não foi passível de publicação, (minto, algumas até foram, mas bem poucas). Porque o cotidiano ardiloso não nos escapa, a realidade sangra, porém, paramos tudo para colorir as nossas vidas. Tentamos fazer do nosso cotidiano tedioso num espetáculo patético, que nos dá a ilusão de que para existirmos precisamos constantemente aparecer (imagem), ou seja, “sou visto nas redes sociais, logo existo”.

Obviamente nenhuma postagem corresponde fielmente a realidade que ela cria, já que é virtual e não real. Não estou dizendo para excluírem as redes sociais, nem pararem de postar status, cada um faz o que quiser com as suas ferramentas sociais. Eu só estou tentando fazer um exercício de reflexão deste fenômeno que é recente, e por isso mesmo, temos que entender a dinâmica de afetos que delas brotam e que acabam extrapolando para a nossa vida cotidiana. Porém, é inegável a importância das redes sociais na  ampliação e democratização do conhecimento.

Para sublinhar essa onda de superestimação das nossas vidas, e de publicidade positiva que fazemos de nós mesmos, eu invoco alguns trechos do belo e certeiro “Poema em linha reta” de Álvaro de Campos que todos deveriam saber inteiro de cor: 

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada/ todos os meus conhecidos tem sido campeões em tudo/ eu tantas vezes reles/ tantas vezes porco/ tantas vezes vil/ eu tantas vezes irrespondivelmente parasita/ indesculpavelmente sujo/ eu que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho/ eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo/ que tenho enrolado os pés publicamente no tapetes das etiquetas [...] eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo/ toda gente que eu conheço e que fala comigo/ nunca teve um ato ridículo/ nunca sofreu enxovalho/ nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes na vida/ arre, estou farto de semideuses!/ onde é que há gente no mundo?/ então sou só eu que sou vil e errôneo nesta terra? 

Através desse poema eu me lembrei do louco que em plena luz do dia, andava com uma lanterna acessa e gritava: - procuro Deus! Procuro Deus! Na contemporaneidade não tem mais sentido essa procura. Temos que ligar a lanterna em pleno meio dia para gritarmos: onde é que há gente!? 

Me parece que tanto o mundo virtual, quanto o mundo real está ficando com uma seriedade ingênua e por incrível que pareça, cada vez mais moralista. Precisamos ter “causas”. Quanto mais “causas” você tiver leitor, mais do “bem” você será, mesmo que na sua vida privada, ou na hora que ninguém esteja te olhando você seja uma pessoa detestável, quer dizer que, hoje em dia, não basta ser desconstruído, tem que parecer desconstruído aos olhos dos outros. "os olhos do outro"  é muito caro na contemporaneidade. 

Em outras épocas você seria bem visto se fosse a igreja todos os domingos, mesmo que no particular se contentasse em ser um pecador convicto, mesmo assim, as pessoas ainda acreditariam que você é do "bem". Semelhanças deste tipo não me escapam. 

No cotidiano pós-moderno, todos nós somos observados através do furo no olho de um quadro, com a diferença que sabemos quem está olhando e podemos moldar a nossa imagem. Todos nós olhamos pelo buraco da fechadura do outro. Não há nenhuma novidade nisso. Olhamos e só vemos semideuses e semideusas. Todos se “tornaram sábios em tudo e querem estar certos sobre tudo”, e quando isso ocorre, este tipo de “sabedoria” acaba perdendo toda a sua elegância, pois, se tornou banal.

As pessoas de convicções falam, falam. Eu fico ouvindo e quase sempre não falo nada, geralmente parecem um pavão cheios de argumentos sobre tudo. Mas quanto mais elas falam, mais vão deixando indícios e provas contra elas mesmos. A medida em que as pessoas de convicções se mostram para mim eu vou me retraindo, para ser aquela pessoa que elas veem, mas não veem nada. Talvez isso ocorra por conta dessa mania niilista que me assombra de vez em sempre.

Humberto Eco afirmou uma vez que “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”, talvez porque agora, todos emitem a sua velha opinião formada sobre tudo, claro que de uma maneira amplificada pelas redes sociais. 

Penso que qualquer pessoa com um gosto um pouco acima da média veria uma grosseria nessa necessidade imediata de sabedoria-utilitarista-tecnicista, ou melhor, essa vontade de verdade exacerbada. Tudo isso, ainda poderá fazer germinar um novo modo de nobreza da alma, ser nobre, não será mais ser sábio ou intelectual, e sim, ter loucuras na cabeça. Ser-poeta.

Como muita gente que conheço, eu também estou preocupado com os rumos do Brasil. Por aqui, somam-se genocídios impunes contra o povo preto das periferias, como no caso de uma família em Guadalupe que levou oitenta tiros, e ceifou a vida de um músico negro que sequer tive direito a julgamento. Sem falar em todos os retrocessos advindos desse “desgoverno das milícias e das laranjas”, mas temos que ter cautela, poucos sabem, mas: “quando julgamos estar a zombar da ideologia dominante, estamos apenas a reforçar o domínio que ela exerce sobre nós”. (Zizek).

Muitos estão dominados por esse novo governo e não se dão conta. Sejam de direita ou de esquerda não tenho dúvidas de que este governo deu sentido para a vida de muita gente, nunca a burrice esteve tão bem representada, porém, postar 30 vezes por dia contra o Bolsonaro e bater no peito que é resistência, encobre uma certa obsessão política desordenada, que na maioria dos casos, essas pessoas não conseguem pensar para além disso.

Acredito que precisamos desacelerar um pouco. Sempre que saio faço a pergunta de Álvaro de Campos: onde é que há gente no mundo? Precisamos deixar de lado essa seriedade enclausurante, que de certo modo, está presente no início deste texto e que aos poucos vai sendo deixada de lado para perceber o poder da distração: “Distraídos venceremos”, a distração aqui descrita não é deixar de lutar, mas ela é a força que permite que continuemos lutando. 

Precisamos perder o medo de errar, essa áurea sábia de quem quer ser interessante e estar certo o tempo todo. O filósofo Nietzsche, por meio do seu Zaratustra, nos diz que: “É mais nobre dizer que errou do que querer ter razão, especialmente quando se tem razão. Mas é preciso ser bastante rico para isso”.

Enfim, precisamos pirar, viajar na maionese, errar, sacudir, aprender, desaprender, falar bobagens e viver a vida de peito aberto. Como diria Charles Baudelaire: Embriagai-vos!

– “É a hora de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos! Embriagai-vos sem cessar! Com vinho, poesia, virtude! Como quiserdes!”

(Alex Domingos)


Ouçam o poema em linha reta completo, por Abujamra. 

Link >>>>>

https://www.youtube.com/watch?v=OVYqz8qvmKg&t=1s