terça-feira, 23 de abril de 2019

Performance poética e alteridade através do espelho













Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta, As sensações renascem de si mesmas sem repouso, Ôh espelhos, ôh! Pireneus! Ôh caiçaras! Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro! Abraço no meu leito as melhores palavras, E os suspiros que dou são violinos alheios; eu piso a terra como quem descobre a furto Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos! Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta, mas um dia afinal eu toparei comigo...Tenhamos paciência, andorinhas curtas. Só o esquecimento é que condensa, E então minha alma servirá de abrigo.


Mário de Andrade. Poesias Completas. São Paulo: Martins Editora, 1955. p. 221.

A performance da boa poesia talvez seja, aquela que nos arranca um suspiro e nos faz calar por alguns segundos. Observar-se ainda, aquelas que fazem com que ergamos a cabeça, dando forma aos nossos mais íntimos pensamentos, assim olhamos para o alto em silêncio, pois, sua performatividade se propaga pelo corpo, e também é incorporada e experienciada pelo leitor, que já não é mais o mesmo que se colocou a ler a primeira frase.

Ora, se existem aquelas poesias da qual não nos resta mais nada, além do calar-se diante do termino da leitura, o silêncio é algo que merece ser evidenciado nesta relação performática com a poesia. Agambem, em seu “micro-texto”: (a ideia do silêncio), se vale de uma fábula da antiguidade para sublinhar a importância do silêncio, nela lê-se este apólogo:
Os atenienses tinham por hábito chicotear a rigor todo candidato a filósofo, e, se ele suportasse pacientemente a flagelação, poderia então ser considerado filósofo. Um dia, um dos que se tinham submetido a essa prova exclamou, depois de ter suportado os golpes em silêncio: ”Agora já sou digno de ser considerado filósofo!” Mas responderam-lhe, e com razão: “Tê-lo-ias sido, se tivesses ficado calado” [1].

Acredito que tanto a filosofia como a poesia se relacionam com a experiência do silêncio. Todavia, o senso comum concebe o silêncio como a ausência de som ou até mesmo de expressão, porém, ele – o silêncio tem muito a nos dizer. 

Como na fábula, onde não bastava o filósofo suportar pacientemente a flagelação, teria também que fazer a experiência do silêncio para tornar-se filósofo. Ainda, segundo Agambem: um belo rosto é talvez o único lugar onde há verdadeiramente silêncio [2]. O rosto carrega consigo a linguagem do silêncio, pois, é no silêncio que o rosto diz.

Isto me lembra das diversas vezes que algumas pessoas do meu círculo íntimo de amizade me olhavam, e esse olhar fazia com que eu soubesse exatamente o que elas gostariam de me dizer, não com palavras, mas com o silêncio que emanava do rosto. 

O rosto que me dizia algo, eram o rostos de outras pessoas, aqui, quando falo sobre a outras pessoas, ou o “outro” como manifestação da linguagem corporal, estabeleço a relação de alteridade, pois, alteridade pressupõe o “outro” ou “outrem”.

A alteridade indica a presença de um Outrem que não se anula na relação. Independentemente da verdade ou mentira que ele venha a dizer, o seu rosto já é expressão. Lévinas compreende que a alteridade, enquanto relação ética, é anterior a qualquer afirmação, seja ela verdadeira ou falsa. O signo verbal é posterior à expressão do rosto [3].

A relação de alteridade quando estou frente à outra pessoa, ainda que parecida, é distinta daquela relação de alteridade, quando estou frente a frente comigo mesmo, ou seja, através do espelho. Ao olhar no espelho, coloco-me face a face comigo mesmo, o que fica evidente é que, eu sou o outro de mim mesmo (alteridade). Assim, a distinção está na transparência deste olhar. 

Ora, a relação de alteridade, com uma pessoa distinta, não nos permite conhecer o outro como conhecemos a nós mesmos, (embora muitas vezes este conhecimento seja ficcional), por mais que o rosto da outra pessoa fale, algo ainda permanecerá velado. O que não ocorre, quando me coloco diante do espelho, onde não tenho nada para esconder de mim mesmo, e onde as glórias e imperfeições atravessam o espelho e tornam-se tão claras, como na poesia chamada retrato da escritora Cecília Meireles:

Retrato – Eu não tinha esse rosto de hoje/assim calmo, assim triste, assim magro/ Nem estes olhos tão vazios/Nem o lábio amargo./Eu não tinha estas mãos sem força/ Tão paradas e frias e mortas/ Eu não tinha este coração/ Que nem se mostra./ Eu não dei por esta mudança/ Tão simples, tão certa tão fácil: - Em que espelho ficou perdida minha face? [4]

No espelho lidamos com o óbvio, aqui com o qual não tivemos “tempo” de ter visto antes, talvez pela correria, vinda, desde muito tempo, através do jargão “time is Money”. Assim, nos perdemos no cotidiano, porém, é no espelho e em sua alteridade que procuramos a nós mesmos, esta questão nos assusta, a obscenidade do espelho nos assusta, como nas palavras de Boudrillard:

Quando as coisas se tornam demasiadamente reais, quando elas são dadas imediatamente, quando existem como realidade concreta, quando estamos neste curto-circuito que faz com que as coisas se tornem cada vez mais próximas, estamos na obscenidade [5].

A cada olhadela no espelho, em nossa face aflora a “realidade”, pois, a relação de alteridade está demasiadamente próxima, está logo ali, - no espelho. É nele que enxergamos as falhas e imperfeições que tanto aflige o ser humano, algumas pessoas pensam até em quebrá-lo, ou jogá-lo para longe. “Quebrar o espelho é deixar de ser para ser, transver [6].
O espelho remete a loucura, a loucura de nos vermos fora de nós mesmos. É esta loucura que o ator sente cada vez que entra no espaço da cena, ele cria uma imagem dentro e fora de si mesmo. Ele é e não é ao mesmo tempo. Narciso se apaixona pela própria imagem e perde a si mesmo. Tirésias, contudo, já havia predito ao belo narciso que ele viveria apenas enquanto não se visse [7].

Existe um trecho na música, “Índios”, da banda de rock brasileira, Legião Urbana, que dialoga magistralmente com esta poesia do Guimarães Rosa, na letra que é cantada por Renato Russo, evidencia a relação da sociedade com o espelho, na música ouve-se:

Quem me dera ao menos uma vez/provar que quem tem mais do que precisa ter/quase sempre se convence que não tem o bastante/ Fala demais por não ter nada a dizer/ Quem me dera ao menos uma vez/ Que o mais simples fosse visto/ Como o mais importante/ Mas nos deram espelhos/ vivemos num mundo doente [8].

A frase: “Fala demais, por não ter nada a dizer”, traz à tona novamente o tema do silêncio, que talvez se manifesta não quando não dizemos nada, e sim, talvez, quando dissemos tudo. Narciso se perdeu, por conta de ver seu reflexo espelhado na água, sua doença foi o espelho. De certa forma, o espelho é o reflexo de uma sociedade individualista e que presa no mais das vezes pelo seu próprio eu. Na maior parte, o que impera é a dificuldade de lidarmos com o espelho, por isso, me pergunto o porquê desta dificuldade?

Ora, estamos muito magros, ora estamos gordos em demasia, ora não suportamos o simples olhar, como naquela música do Engenheiros do Havaí que diz: “Só me acorde quando o sol tiver se posto/ eu não quero ver meu rosto antes de anoitecer”:

Quem olha um espelho conseguindo ao mesmo tempo isenção de si mesmo, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade é ele ser vazio, quem caminha para dentro de seu espaço transparente sem deixar nele o vestígio da própria imagem - então percebeu o seu mistério [9].

Contudo, nem todos mantêm uma relação de estranhamento quando se olha no espelho, como no conto “Os espelhos”, da Clarice, em que ela brinca com essa relação de alteridade diante do seu reflexo, visto que, há pessoas que ao mesmo tempo em que olham a sua face no espelho, conseguem a isenção de si, como se aquele rosto ali clamando por uma reflexão mais demorada, não quisesse dizer nada. Existe também aquelas pessoas que conseguem vê-lo sem se ver e quem entende sua profundidade sem ser vazio. Todas essas são diferentes perspectivas sobre a relação de alteridade do eu com o espelho. 

(ALEX DOMINGOS)



[1]AGAMBEM.idéia da prosa, p.110.
[2]AGAMBEM.idéia da prosa, p.112.
[3]CARVALHO.Alteridade e diálogo, p.110.
[4]MEIRELES.Ontologia poética, p.128.
[5]BAUDRILLARD. Senhas, p.30.
[6]BARROS.O livro sobre o nada.p, 123.
[7]ROSA. Primeiras histórias. p, 69.
[8]URBANA, Legião. Álbum Dois.Música 12.
[9] LISPECTOR,Os espelhos. Disponível em:<http://claricelispector.blogspot.com.br/2008/02/os-espelhos.html>. Acesso em: 05/07/15.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Onde é que há gente no mundo?





Tirando o cenário político brasileiro, nada me deixa mais intrigado hoje em dia, do que aquelas pessoas que querem ser interessantes o tempo todo, principalmente nas redes sociais. Talvez sejam assim, porque ainda não perceberam, que existe uma espécie de vazio escondido por trás da aparência enganadora das mídias sociais, que  muitas vezes maquiam as nossas faltas e nos transformam em joguetes de algoritmos que de longe "sabem" mais de nós do que nós mesmos.

Funciona assim, as interações que são feitas nas redes sociais são salvas pelos algoritmos e a cada click que damos, armazena mais e mais dados no sistema (cokies), que passa a “saber” cada vez mais sobre nós. É assim que os algoritmos comandam qual será o nosso próximo afeto. Segundo Zizek: “Independente das nossas diferenças meramente ônticas, participamos todos na mesma catástrofe ontológica”. Eu acrescentaria: não só ontológica como também virtual.

Nesse esforço para sermos interessantes o tempo todo, tem de tudo, desde aqueles que vivem postando, (SEM AO MENOS LER NA ÍNTEGRA), vários artigos ao longo do dia, porque a manchete a princípio é "legalzinha".Talvez, façam isso, para parecerem informados e relevantes, mas tem preguiça e não  leem a matéria toda, nem procuram entender as suas implicações e muito menos fazer comentários que sejam realmente interessantes, ainda chega a ser pior, em alguns casos escrevem como único comentário da publicação a palavra: “FATO”, não sei vocês, mas, eu tenho muito receio quanto a capacidade crítica destas pessoas, elas estão atrás somente daquelas que postam coisas sobre resiliência ou as frases do OSHO.

Também encontramos nas mídias sociais aquelas pessoas que necessitam chegar ao fim do dia e estar com seu status cheio de postagens, as vezes por trabalho, ou por que seu dia tenha sido realmente incrível, isso é totalmente compreensível, mas na maioria das vezes é uma tentativa de salvar o seu cotidiano tedioso. Muito comum hoje, mentir para si mesmo que o seu dia foi lindo, ao menos na aparência das redes sociais. 

Isto me faz pensar que na contemporaneidade cada vez mais precisamos da confirmação do outro para saber se a nossa vida é interessante, precisamos do vizinho para saber se a nossa grama é verde e não somos daltônicos. A consequência lógica é que: se necessitamos muito dessa confirmação é porque nossa vida por ela mesmo não é tão interessante assim. Nesta lógica, só vamos a praia não como fim último da ação, mas para mostrar-mos para os outros que viajamos nas férias.

As pessoas tentam desesperadamente, mas não é possível ser interessante o tempo todo, pois temos paixões, pulsões, desejos e emoções. De tal modo, que se a maioria de nós convivêssemos diariamente com nossos grandes ídolos (sim, aqueles que achamos interessantes de longe), ficaríamos profundamente decepcionados se os víssemos de perto, pois perceberíamos o quanto nós os idealizamos e o quanto eles podem ser um pé no saco.

Posso afirmar que as melhores experiências que eu passei não foi passível de publicação, (minto, algumas até foram, mas bem poucas). Porque o cotidiano ardiloso não nos escapa, a realidade sangra, porém, paramos tudo para colorir as nossas vidas. Tentamos fazer do nosso cotidiano tedioso num espetáculo patético, que nos dá a ilusão de que para existirmos precisamos constantemente aparecer (imagem), ou seja, “sou visto nas redes sociais, logo existo”.

Obviamente nenhuma postagem corresponde fielmente a realidade que ela cria, já que é virtual e não real. Não estou dizendo para excluírem as redes sociais, nem pararem de postar status, cada um faz o que quiser com as suas ferramentas sociais. Eu só estou tentando fazer um exercício de reflexão deste fenômeno que é recente, e por isso mesmo, temos que entender a dinâmica de afetos que delas brotam e que acabam extrapolando para a nossa vida cotidiana. Porém, é inegável a importância das redes sociais na  ampliação e democratização do conhecimento.

Para sublinhar essa onda de superestimação das nossas vidas, e de publicidade positiva que fazemos de nós mesmos, eu invoco alguns trechos do belo e certeiro “Poema em linha reta” de Álvaro de Campos que todos deveriam saber inteiro de cor: 

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada/ todos os meus conhecidos tem sido campeões em tudo/ eu tantas vezes reles/ tantas vezes porco/ tantas vezes vil/ eu tantas vezes irrespondivelmente parasita/ indesculpavelmente sujo/ eu que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho/ eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo/ que tenho enrolado os pés publicamente no tapetes das etiquetas [...] eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo/ toda gente que eu conheço e que fala comigo/ nunca teve um ato ridículo/ nunca sofreu enxovalho/ nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes na vida/ arre, estou farto de semideuses!/ onde é que há gente no mundo?/ então sou só eu que sou vil e errôneo nesta terra? 

Através desse poema eu me lembrei do louco que em plena luz do dia, andava com uma lanterna acessa e gritava: - procuro Deus! Procuro Deus! Na contemporaneidade não tem mais sentido essa procura. Temos que ligar a lanterna em pleno meio dia para gritarmos: onde é que há gente!? 

Me parece que tanto o mundo virtual, quanto o mundo real está ficando com uma seriedade ingênua e por incrível que pareça, cada vez mais moralista. Precisamos ter “causas”. Quanto mais “causas” você tiver leitor, mais do “bem” você será, mesmo que na sua vida privada, ou na hora que ninguém esteja te olhando você seja uma pessoa detestável, quer dizer que, hoje em dia, não basta ser desconstruído, tem que parecer desconstruído aos olhos dos outros. "os olhos do outro"  é muito caro na contemporaneidade. 

Em outras épocas você seria bem visto se fosse a igreja todos os domingos, mesmo que no particular se contentasse em ser um pecador convicto, mesmo assim, as pessoas ainda acreditariam que você é do "bem". Semelhanças deste tipo não me escapam. 

No cotidiano pós-moderno, todos nós somos observados através do furo no olho de um quadro, com a diferença que sabemos quem está olhando e podemos moldar a nossa imagem. Todos nós olhamos pelo buraco da fechadura do outro. Não há nenhuma novidade nisso. Olhamos e só vemos semideuses e semideusas. Todos se “tornaram sábios em tudo e querem estar certos sobre tudo”, e quando isso ocorre, este tipo de “sabedoria” acaba perdendo toda a sua elegância, pois, se tornou banal.

As pessoas de convicções falam, falam. Eu fico ouvindo e quase sempre não falo nada, geralmente parecem um pavão cheios de argumentos sobre tudo. Mas quanto mais elas falam, mais vão deixando indícios e provas contra elas mesmos. A medida em que as pessoas de convicções se mostram para mim eu vou me retraindo, para ser aquela pessoa que elas veem, mas não veem nada. Talvez isso ocorra por conta dessa mania niilista que me assombra de vez em sempre.

Humberto Eco afirmou uma vez que “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”, talvez porque agora, todos emitem a sua velha opinião formada sobre tudo, claro que de uma maneira amplificada pelas redes sociais. 

Penso que qualquer pessoa com um gosto um pouco acima da média veria uma grosseria nessa necessidade imediata de sabedoria-utilitarista-tecnicista, ou melhor, essa vontade de verdade exacerbada. Tudo isso, ainda poderá fazer germinar um novo modo de nobreza da alma, ser nobre, não será mais ser sábio ou intelectual, e sim, ter loucuras na cabeça. Ser-poeta.

Como muita gente que conheço, eu também estou preocupado com os rumos do Brasil. Por aqui, somam-se genocídios impunes contra o povo preto das periferias, como no caso de uma família em Guadalupe que levou oitenta tiros, e ceifou a vida de um músico negro que sequer tive direito a julgamento. Sem falar em todos os retrocessos advindos desse “desgoverno das milícias e das laranjas”, mas temos que ter cautela, poucos sabem, mas: “quando julgamos estar a zombar da ideologia dominante, estamos apenas a reforçar o domínio que ela exerce sobre nós”. (Zizek).

Muitos estão dominados por esse novo governo e não se dão conta. Sejam de direita ou de esquerda não tenho dúvidas de que este governo deu sentido para a vida de muita gente, nunca a burrice esteve tão bem representada, porém, postar 30 vezes por dia contra o Bolsonaro e bater no peito que é resistência, encobre uma certa obsessão política desordenada, que na maioria dos casos, essas pessoas não conseguem pensar para além disso.

Acredito que precisamos desacelerar um pouco. Sempre que saio faço a pergunta de Álvaro de Campos: onde é que há gente no mundo? Precisamos deixar de lado essa seriedade enclausurante, que de certo modo, está presente no início deste texto e que aos poucos vai sendo deixada de lado para perceber o poder da distração: “Distraídos venceremos”, a distração aqui descrita não é deixar de lutar, mas ela é a força que permite que continuemos lutando. 

Precisamos perder o medo de errar, essa áurea sábia de quem quer ser interessante e estar certo o tempo todo. O filósofo Nietzsche, por meio do seu Zaratustra, nos diz que: “É mais nobre dizer que errou do que querer ter razão, especialmente quando se tem razão. Mas é preciso ser bastante rico para isso”.

Enfim, precisamos pirar, viajar na maionese, errar, sacudir, aprender, desaprender, falar bobagens e viver a vida de peito aberto. Como diria Charles Baudelaire: Embriagai-vos!

– “É a hora de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos! Embriagai-vos sem cessar! Com vinho, poesia, virtude! Como quiserdes!”

(Alex Domingos)


Ouçam o poema em linha reta completo, por Abujamra. 

Link >>>>>

https://www.youtube.com/watch?v=OVYqz8qvmKg&t=1s 




terça-feira, 24 de julho de 2018

O riso de Nietzsche








Moro na minha própria casa,
nunca imitei ninguém,
E rio-me de todos os mestres
que nunca riram de si.
(Inscrição por cima da minha porta)
(Nietzsche, A gaia ciência, p,09)


O ser humano é provavelmente o único animal na face da terra que ri. Só por essa questão o riso já daria um belo tratado filosófico. Não foi à toa que muitos filósofos investigaram o riso com seriedade. Neste sentido, podemos encontrar uma teoria do riso na filosofia de Hobbes, Kant, Schopenhauer e Nietzsche. Em Nietzsche por exemplo, não encontramos uma obra inteira dedicada ao riso, mas durante as suas investigações o riso aparece e ganha espaço as vezes teorizado, as vezes de modo irônico nas suas sentenças.

O filósofo deixa claro a importância que o riso tem para a filosofia: “Eu chegaria mesmo a fazer uma hierarquia dos filósofos conforme a qualidade do se seu riso – colocando no topo aqueles capazes de uma risada de ouro” (Nietzsche, Além do bem e mal). Mas, qual é o filósofo que possui a risada de ouro? O sorriso de ouro é próprio daqueles que estende o riso de si para o mundo e é capaz não só de rir das pequenas coisas, mas também da fatalidade do cosmos. Isso é próprio de quem tem o sorriso brilhante, afirmar o cosmos em sua integralidade, rindo até mesmo do aspecto trágico da vida, amando (amor fati) a vida em seus aspectos “positivos” e “negativos”. Filósofos como Platão percebiam o riso como algo prejudicial para a pólis. 
 
Ao contrário, Nietzsche tece nas entrelinhas do riso a sua cosmologia. Desta forma, abre-se caminho para uma ética ancorada não na racionalidade, nem na religião, e sim no cosmos: - Temos assim uma ética cosmológica. Hegel acredita que o cosmos é ordenado pela racionalidade, “O real é racional e o racional é real”, neste sentido, as coisas caminham para um progresso contínuo e a ética está baseada unicamente na razão.

Para Schopenhauer o cosmos não é ordenado, e sim desordenado, isso quer dizer que não existe uma razão que organiza o universo, mas uma vontade cega e caótica que desorganiza o mundo, por isso a fama de pessimista de Schopenhauer, já que se o mundo não é governado pela razão e sim por uma vontade cega, significa que em algum momento as coisas irão dar errado. Nietzsche concorda em partes com Schopenhauer, para ele o cosmos é governado pela vontade cega e caótica, mas não qualquer tipo de vontade, a Vontade de Potência.

Nietzsche em sua obra Assim falava Zaratustra discorre sobre a vontade de potência por meio de imagens, como sendo uma vontade cosmológica que faz com que qualquer ser vivo passe a desejar cada vez mais o aumento da sua potência de agir, o pensador fala de forças e não de indivíduos. O filósofo lança a sua teoria da vontade de potência através da boca de Zaratustra que é aquele que consegue levar o riso ao seu mais alto grau de esplendor, nas suas palavras: “Fui eu próprio que canonizei o meu riso”. Ora, o riso é algo a ser canonizado, tamanha a sua importância, agora, não mais para a filosofia, e sim, para a vida. Lembrando que Cioran já dizia que para se ter um lugar honrado na filosofia era preciso ser comediante. O filósofo alemão não tinha dúvidas quanto a isso: "Sou um aprendiz do filósofo Dionísio e preferiria antes ser um sátiro do que um santo".  Porém,  o riso também possui o seu aspecto trágico: “Não é com ira que se mata, mas com riso”.

O riso em Nietzsche sempre me chamou a atenção por ser o pano de fundo onde o filósofo produz as suas imagens. Seu conteúdo é tão rico que jamais caberia num só texto, deixo aqui somente uma parcela do riso de Nietzsche. Termino com as palavras de Zaratustra: “Aquele que galga as mais altas montanhas ri de todas as tragédias lúdicas e de todas as tragédias sérias”.


(Alex Domingos)

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Por que ainda não pensamos?










“O mais grave é que nós ainda não pensamos: ainda não, apesar da situação do mundo continuamente da mais o que pensar”. (HEIDEGGER, 2005, p.126).


O mundo está continuamente nos dando o que pensar, isto é evidente, mas será que de fato pensamos? Ou só reproduzimos de forma binária certas informações que achamos legaizinhas? Por que pensamos aquilo que pensamos? Afinal de contas o que é pensar? Esta pergunta nos dá esperanças de que no decorrer do texto saibamos exatamente o que é esta atividade que, segundo Aristóteles, nos diferencia das outras espécies de animais. Não o farei. Ao invés disto, problematizarei determinadas questões e algumas formas de pensar e não-pensar para que assim, possamos nos situar dentro do espaço da dúvida, onde se dá o pensamento, de modo que o pensar tenha a chance de mostrar-se por si mesmo.

Não tenho dúvidas de que vivemos numa época de imbecilização e não numa época de reflexão, isso Heidegger já nos alertava em 1969 num de seus livros, cujo o título é: O que significa pensar? Neste livro, Heidegger lança a sua radical sentença: “ainda não pensamos”, visto que, pensar é algo diferente daquilo que “pensamos” fazer. Por hora, abandonarei a questão sobre o que é o pensar, para investigar de que forma estamos “pensando que pensamos”, sobretudo, os problemas que são colocados no nosso cotidiano.  Assim, ao invés de tentar responder o que é pensar, darei início a problemática refletindo sobre o que não é pensar. Aviso que tenho leves suspeitas para acreditar que cada vez mais a imbecilização das pessoas faz com que haja uma certa desautorização do pensamento crítico-filosófico. Não é raro fazerem algum tipo de chacota com quem insiste em sair da superficialidade. Nietzsche já havia previsto: “teremos contra nós os imbecis e a aparência”.

A reflexão que é feita pela maioria das pessoas hoje no Brasil é algo impulsionado pelo ódio e não pela racionalidade, isto é evidente. É isso que no final das contas gera a tão falada “polarização do pensamento”. Esse terreno político-brasileiro impulsionado pelo ódio ajuda a disseminar ainda mais o preconceito e a burrice que é alimentada por chavões do senso comum. Nesse cenário de polarização acredito que é preciso se posicionar, todavia, se posicionar somente para se posicionar é algo cafona. É preciso pensar com cautela antes de compartilhar aquela posição marota, e guardá-las de vez em quando se torna até um ato de nobreza. Temos que “ruminar” nossa opinião, coloca-la no gelo, pois, não basta reproduzir certas informações por simples necessidade de reprodução de conteúdo, pois desta forma, ainda estaremos no campo do não-pensamento e não reflexão, neste sentido, não exercitamos o pensamento, mas sim, a proliferação de informações carimbadas pelo nosso crivo como verdadeiras e necessárias.

Agimos de forma binária quando compartilhamos certos conteúdos que achamos “inteligentinhos” e “descontruidões”. O cérebro recebe o estimulo e a única forma de raciocínio é GOSTEI ou NÃO GOSTEI, APLAUDO ou NÃO APLAUDO, BOM ou RUIM, se gosto compartilho, se não, deixo passar. Em outros casos destilamos nosso ódio nos comentários, poucas vezes dialogamos com o que foi lido e contestamos alguns pontos, em outras palavras: abraçamos tudo ou recusamos tudo. Queremos concordar na integralidade, pois, discordar dá trabalho e muitas amizades são desfeitas por isso. 

Compartilhamos por que temos convicção de que aparentemente o conteúdo visualizado está correto, mas, nem sempre este conteúdo foi devidamente pensado, refletido. Isto ainda não é pensar, isto é reproduzir binariamente um conteúdo que foi idealizado por outra pessoa e que você considera correto, ele não passou pelo filtro do pensamento, mas pelo filtro do bom ou ruim, compreendem? Não pensamos de fato aquilo que foi lido, fazemos outra coisa. Às vezes nem buscamos investigar se a fonte é realmente confiável. Heidegger diria: “Ainda não pensamos”.

As coisas andam tão esquisitas que se você defender o artigo 3º da constituição brasileira que prega a construção de uma sociedade “livre e justa que garanta o desenvolvimento nacional e que possibilite a erradicação da pobreza e a marginalização, para reduzir as desigualdades sociais e regionais, ou se promovemos o bem-estar de todos sem preconceitos de origem, raça, cor, sexo ou qualquer tipo de discriminação”, logo somos acusados de esquerdopata ou rotulado de comunista por algum jovem afoito e abjeto. O mesmo acontece quando se critica algum posicionamento da esquerda brasileira, automaticamente os militantes te taxam de coxinha, pmdebista, conservador e coisas do tipo, ou seja, ou você aceita toda a cartilha daquele grupo do qual se identifica ou é rechaçado pelos seus próprios participantes, não com argumentos, mas, com ódio.

Discordar se tornou algo inaceitável na contemporaneidade. Pensar passou a ser tóxico. Experimente fazer uma crítica a uma determinada posição do feminismo, que na mesma hora aparece uma avalanche de mulheres que sequer leram Simone de Beauvoir para automaticamente te classificar como antifeminista, machista, te excluir da rede social ou você é visto até mesmo como alguém que reproduz ódio as mulheres, tudo isso por uma simples crítica a uma única posição do feminismo, por mais que saibamos o devido “lugar de fala”, parece que devemos a partir disto apoiar todas as atitudes do feminismo, da direita ou esquerda, não se pode divergir de nenhuma. O que me parece é que não podemos mais pensar a respeito das questões relacionadas aos movimentos ideológicos no Brasil, ou se aceita tudo desse ou daquele grupo, ou é colocado como inimigo Master do movimento. Claro que há exceções em todos os níveis, mas em grande parte das redes sociais é isso que se mostra nos últimos tempos.

É evidente que eu não estou exigindo que as pessoas passem a fazer reflexões monumentais a cada postagem nas redes sociais, ou na vida, não é isso que proponho, eu só estou tentando entender o modo como estamos fazendo o exercício da “reflexão e do pensamento” nos dias de hoje. Pensamos por meio de memes e emotions. A internet continua sendo esse grande espaço onde todos são especialistas em tudo. 

Acredito que a reflexão crítico-filosófica deve transcender qualquer tipo de ideologia no ato de pensar. A criatividade, a reflexão, a análise, não podem ser deixadas de lado quando falamos em pensamento.

Creio que para fazermos uma análise séria da situação política brasileira se faz necessário despregarmos os olhos de si mesmo para enxergarmos além. Mas, continuamos olhando para o hoje, falseando o passado e olhando para o passado, falseando o hoje. 

Sei que no meio desse turbilhão sempre encontraremos pessoas dispostas a refletir com cuidado essa obscura época que se instalou no Brasil, cujo o assunto do momento é a prisão do ex-presidente Lula, nessa altura do campeonato precisamos parar tudo e explicar o óbvio para as pessoas. Ir contra a prisão do ex-presidente não é ser petista ou socialista ou comunista. Ser contra a prisão do Lula é entender que esse processo desde o seu início foi um desfile de arbitrariedades. Quando se fala de Lula, PT ou Dilma a racionalidade de algumas pessoas logo se transforma em ódio e isso impede elas de pensarem melhor a realidade do Brasil.

O livro: Que significa pensar? Pode ser considerado uma introdução à filosofia de Heidegger por trazer algumas das principais características de seu pensamento. Porém, quando Heidegger fala em aprender a pensar ou “ainda não pensamos”, estas afirmações podem estar de acordo com o que o filósofo chamou de “fim da filosofia e o começo do pensar”. (STEIN, 2002, p.29). No Livro, Heidegger passeia em algumas formas de pensar para avaliar qual seria a mais “digna”. Para o filósofo o pensar surge como um verbo substantivo sugerindo atividade, exercício.

A filosofia é responsável pelo exercício do sentido. Sentido que tem a condição de possibilidade, ou seja, uma abertura para o real, desta forma, a filosofia se situa num espaço diferente do cálculo, por exemplo. Ela atua onde o cálculo não atinge. Se considerarmos que o pensamento é somente aquele capaz de dar sentido e que, de certa forma se opõe ao cálculo, então a ciência, sobretudo, aquela positivista da época de Heidegger, também não pensa, pois se reduzia a calcular, recolher dados e organizá-los. Para Heidegger o pensar seria também algo diferente disto.

A religião também não pensa, ao passo que necessita se fixar em muitos dogmas que dificultam a ação do pensamento. A maior parte das religiões são amparadas por um texto compreendido como sendo uma revelação divina, ou seja, seus adeptos precisam seguir certas normas morais e dogmas estabelecidos neste livro, o pensamento morre aí. Atualmente o Papa-pop faz malabarismos de marketing para angariar fiéis um tanto quanto impressionáveis.

O que eu posso dizer é que o pensar é algo raro nos dias de hoje. O pensar necessita brotar como algo inevitável, como facticidade, como uma urgência. Não pode ser mera repetição de fórmulas prontas. Pensar é correr riscos, é como dar um salto para o desconhecido. O pensar autêntico surge quando abandonamos fórmulas e até mesmo conteúdos teóricos, visto que, o fato de estarmos comprometidos com os resultados teóricos e com o pensamento de outros faz com que pouco a pouco abandonemos os nossos próprios pensamentos. De que adianta fazermos uma pesquisa que de antemão já sabemos o resultado?

As teorias se mostram indispensáveis e nos ajudam no ato de pensar, porém, para que possamos trilhar um caminho autêntico no campo da reflexão, precisamos sim, caminhar de encontro ao desconhecido, e para isso é necessário coragem. Pessoas que se limitam a repetir fórmulas e pensamentos prontos tem bastante por aí. 

Sigo nesta tentativa de fazer experimentos com o pensamento, sem medo de errar, pois, o salto para o pensar exige necessariamente quebras de paradigmas, rupturas, reconsideração de certezas e rompimento com pressupostos e epistemologias que estão cristalizadas. No meu entendimento o pensar caminha por essa via, a via do desconhecido. No final das contas, temos que insistir e persistir na pergunta que interroga pelo significado da palavra pensar.

 (Alex Domingos)

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Mustafary: os hipócritas são os outros!



Julgar e condenar moralmente é a vingança preferida das almas limitadas sobre aquelas que são menos que elas. (NIETZSCHE. Além do bem e do mal, p.57)
Um dos mais recentes personagens do comediante Marco Luque se chama Mustafary. Pra quem não o conhece ainda, Mustafary é um dreadlock, baiano e fundador do “Mustafaryanismo” que posta uma variedade de vídeos no youtube, mostrando o seu “íntimo contato” com a natureza e as suas peculiaridades. Algumas semanas atrás, comecei a prestar atenção em algumas de suas performances e confesso ter gostado do personagem.
Ultimamente tenho refletido o por que do personagem Mustafary nos parecer tão engraçado, afinal, por que rimos dele? Ora, é evidente que o personagem satiriza de maneira inteligente e bem humorada o comportamento da galerinha “alternativa” e dos drealocks que se dizem “amantes da natureza”, que ora clamam para que amemos a natureza, mas que no instante seguinte se irritam com a pedra, ou seja, não rimos tanto quando nos conta uma simples piada, tão pouco quando diz palavras erradas, mas, sobretudo, gargalhamos quando percebemos a sua hipocrisia, pois nos divertimos com ela, a hipocrisia alheia.
O humor sempre contou com a hipocrisia, isso não se pode negar, ela sempre esteve presente no palco, muito utilizada como um artifício do artista na comédia. Nesse sentido, estou convencido de que achamos Mustafary tão legal porque ele nos faz rir devido a sua notável hipocrisia. Contudo, o que significa hipocrisia? O que queremos dizer quando chamamos alguém de hipócrita?
Observando a etimologia da palavra, cuja a origem é grega - hupokrisía remete a ação de desempenhar um papel, a própria arte do ator – de interpretar. Mas, grande parte das pessoas ainda entende a hipocrisia como dissimulação (dissimulatio), ou melhor, fingir algum tipo de sentimento. Como nos vídeos do Mustafary que se coloca como alguém que ama incondicionalmente a natureza, porém, passados alguns minutos pragueja contra a mesma. O ato de “fingir” o sentimento de amor pela natureza é considerado por grande parte das pessoas como a manifestação da hipocrisia. Por uma lado Musta ama a natureza, por outro a amaldiçoa.
Amar a natureza somente em seus aspectos bonitos e prazerosos é fácil, contudo, basta a natureza mostrar a sua força nos impedindo de agir ou nos privando de algo, pronto! Ficamos zangados com ela, reclamamos sem parar do calor infernal! Logo depois, que frio insuportável! Rimos de Mustafary porque no fundo nos identificamos muito com ele. No dia a dia, nos deparamos com vários tipos que não se resumem somente a hipocrisia, mas que, de certa forma, se trata da insanidade da mente contemporânea, percebam: o serumaninho José, buzina para o carro da frente de seu Ford, pois o semáforo abriu, mas José se irrita quando alguém, na próxima sinaleira, buzina para ele pelo mesmo motivo. Esta prática soa como algo insano, não como hipocrisia.
Já Mustafary é um “rasta” diferente, visto que ele não aponta o dedo e acusa ninguém de “hipócrita” como muitos o fazem, nos dias de hoje quem dá atenção para alguém que faz esse tipo de coisa? Acusar moralmente alguém de hipócrita é uma prática ressentida cristã, digo tranquilamente que quem o faz, está negando a própria vida, já que quem aponta o dedo para chamar o outro de hipócrita está convencido de que está do lado dos “santos”, aqueles serumaninhos que não possuem hipocrisia, deste modo, ou está convencido de ser “santo” ou quer em seu íntimo se convencer disto, quem leu Genealogia da Moral sabe do que estou falando. Todavia, as perspectivas acerca da hipocrisia ainda estão submetidas a uma valoração ressentida da moral cristã, porque é resquício dela, porém, é possível reavaliá-la partindo de um ponto de vista filosófico.
Visto isso, ao contrário de que muitos pensam a hipocrisia não é um defeito da sociedade humana, digo que é o lubrificante das relações sociais, pois é muito difícil existir a sociedade sem hipocrisia. Nietzsche afirmou certa vez que “a verdade é uma mentira socialmente aceita”, quer dizer que a mentira nos ronda cotidianamente, porém como “verdade”. Neste sentido, não seria possível a vida comunitária se falássemos a “verdade” vinte e quatro horas por dia, ninguém nos suportaria, “o quanto de verdade podemos suportar?”. Imaginem um relacionamento baseado somente na “verdade”, acabaria nas primeiras vinte e quatro horas.
Existem sim, aqueles “lampejos de verdade”, e de repente somos incapazes de dizer que havíamos gostado de uma comida intragável, por exemplo. São poucas as exceções. Contudo, não há benefício nenhum em denunciar a hipocrisia alheia, por exemplo, não há nada demais em dizer que o rei está nu, quando todos já o sabem disso, e todos nós aceitamos que estamos fingindo não ver. Por isso, denunciar moralmente a hipocrisia é um ato sem sentido e pueril daqueles que não reconhecem a sua própria hipocrisia.
Seguindo o raciocínio do filósofo pré-socrático Heráclito de Éfeso, jamais poderíamos dizer que Mustafary é um hipócrita, tendo em vista que: “um homem não pode entrar no mesmo rio duas vezes, pois ao entrar pela segunda vez o homem já não é o mesmo e tão pouco o rio”.  Deste modo, se Mustafary afirma amar incondicionalmente a natureza numa hora e no instante seguinte a amaldiçoa é porque a impetuosidade das coisas e a velocidade da mudança (DEVIR), fez com que ele pensasse de outra maneira, ora somos seres em constante construção, onde há vida há possibilidade de mudança. Num instante Musta ama o serumaninho-cachorro no outro diz: “sai pra lá! Morre diabo”, seria essa uma prática totalmente válida segundo o raciocínio heraclitiano, visto que as águas do rio se passaram, fazendo-o mudar de opinião, em outras palavras a metamorfose ambulante (RAUL) aconteceu:
O hipócrita que representa sempre o mesmo papel deixa enfim de ser hipócrita. [...] Se alguém quer parecer algo, por muito tempo e obstinadamente, afinal lhe será difícil ser outra coisa. A profissão de quase todas as pessoas, mesmo a do artista, começa com a hipocrisia, com uma imitação do exterior, com uma cópia daquilo que produz efeito. Aquele que sempre usa a máscara do rosto amável terá enfim poder sobre os ânimos benévolos, sem os quais não pode ser obtida a expressão de amabilidade – e estes por fim adquirem poder sobre ele, ele é benévolo. (NIETZSCHE. HH, §51,).
A hipocrisia como dissimulação e fingimento se tornou um conceito sem sentido e ultrapassado como já foi dito, por isso temos que buscar um modo distinto de pensar isso que a sociedade chama hoje de “hipocrisia”. A intenção desse texto não é trocar um conceito fechado por outro, mas sim, abrir espaço para uma nova discussão acerca deste assunto, ampliando os horizontes. São de uma bobagem gigantesca aqueles discursos que pregam uma sociedade sem hipocrisia e blá blá, é de um idealismo infantil.
Por isso, não faço apologia a hipocrisia, em outras palavras, não peço para que sejam hipócritas, pelo contrário, procuro refletir a hipocrisia através de uma outra perspectiva, já que, a nossa sociedade não existe sem ela, o que nos resta é a consciência da nossa própria hipocrisia. Desta maneira, antes de apontarmos o dedo para o nosso vizinho num ato ressentido de chamá-lo de hipócrita, temos que voltar o olhar para dentro si, num ato reflexivo, visto que, quanto mais eu enxergo a minha hipocrisia, mais eu posso entendê-la e diminuí-la. Sartre afirmaria “o inferno são os outros”, eu diria: os hipócritas são os outros; nós quase nunca percebemos a nossa hipocrisia. Viva o Mustafaryanismo pae!
(Alex Domingos)


Referências
COSTA, Gustavo. Da Dissimulação à criação de si – aspectos da hipocrisia em Nietzsche. Revista Trágica: estudos sobre Nietzsche – 2º semestre de 2008 – Vol.1 – nº2 – pp.113-123.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humamo. Vol. II. 1997.

NIETZSCHE, Friedrich. Além do bel e do mal. Editora: Hermus. São Paulo.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

REGGAE E CRISTIANISMO!





Dias atrás me perguntaram: - Qual o problema do reggae? (Eu respondi como qualquer outro fã de reggae e leitor sério de Nietzsche responderia) - O “problema” do reggae está no fato, de que ele é ainda muito "cristão", é evidente que tem muito do cristianismo enraizado em suas letras.

Demorou bastante pra eu entender que o rastafarianismo não é outra coisa se não uma interpretação afro da “bíblia cristã”, ou seja, Jesus era “branco” demais para que os negros africanos acreditassem em sua divindade, por isso foi preciso “buscar” um redentor negro para que os africanos se reconhecessem na própria divindade.

Xenófanes foi um filósofo da época clássica que dizia: “Se os bois, cavalos e leões tivessem mãos ou se pudessem pintar e realizar as obras que os homens fazem com as mãos, os cavalos pintariam imagens dos deuses semelhantes aos cavalos e os bois semelhantes aos bois, e plasmariam os corpos dos deuses semelhantes ao aspecto que cada um deles tem”, assim como os etíopes, que são negros e têm o nariz achatado, ou os trácios que têm olhos azuis e cabelos ruivos, representam seus deuses com tais características. 

Pois bem, Xenófanes proferiu tudo isso para opor-se a visão antropomórfica que os gregos tinham das suas divindades, para ele; se houvesse um deus nem por figura nem por pensamento seria semelhante ao homem, em sua concepção deus seria o cosmos.

Deixamos Xenófanes um pouco de lado, para sublinhar que o cristianismo conseguiu se infiltrar em várias culturas, inclusive na cultura reggae, sendo reformulado é claro, mas sempre mantendo aquele ar sufocante da moral, nesse sentido o reggae não é diferente do cristianismo, mesmo não sendo aquele reggae propriamente rasta acaba levando certos valores cristãos do tipo: paz, amor, união, igualdade e humildade etc... Essas coisas que aprendi através da filosofia a suspeitar e olhar mais demoradamente e com um tremendo receio.

No meu caso o reggae foi importante durante uma parte significativa da minha vida, isso não posso negar, serviu-me como se fosse uma lente que me possibilitava interpretar o mundo de uma maneira diferente de como as outras pessoas o enxergavam, isso para mim era fascinante, outro olhar, outra perspectiva, tanto para a vida como para a música!

Porém, quando finalizei o curso de filosofia, percebi que o reggae já não era o suficiente para continuar explicando as velhas questões, se eu quisesse progredir, o pensamento teria que ir adiante, hoje discordo de alguns conceitos interiorizado pelo “estilo reggae”, alias, penso que discordar é uma prática saudável, as próprias pessoas que ouvem reggae sabe disto!

Hoje penso totalmente diferente do que pensava em outras épocas e tenho orgulho disto! A filosofia nos permite exatamente isto, ver diferentemente do que se vê e pensar diferentemente daquilo que se pensa ou do que se pensou; isto é indispensável para continuarmos a olhar o mundo e refletir!

Sou do tipo de gente que acredita que tudo o que você pensa tem haver com as coisas que acontece ou aconteceu com você, cá entre nós, faço a crítica porque já vivi o reggae, o conheço por experiência, sendo assim faço a crítica também por honestidade ao próprio reggae, por gostar do reggae em excesso.

Contudo, algumas pessoas podem estar se perguntando “qual o problema do reggae ter inserido em sua cultura um caráter cristão? Isso não seria positivo para o próprio reggae?”, atesto que essa pode ser o maior engodo que poderia ter acontecido ou nascido com o reggae, tanto faz; o fato é que introduziu em sua cultura uma moral niilista que nega a vida. Assim como o cristianismo, o reggae também é niilista em sua raiz, isto eu denuncio, porém, nada de novo temos aqui.

A maior parte das músicas reggae que ouço hoje em dia é um apelo moralista barato, no sentido de que existe um padrão de conduta que a existência deve se adequar se não é logo taxado de hipocrisia por alguma “alma santa”, Quá! 

Coisas como esta empobrece o próprio “estilo reggae”, que pode ser sim mais do que isto. Trocando em miúdos, continuamente as letras reggae vem apresentando um “lindo” esquema mental que escraviza a própria vida (moral), isto o cristianismo já faz há séculos, ou seja, se o cristianismo é o platonismo para o povo, o reggae é o cristianismo para os “descolados”.

Encontra-se ainda regueiros que são mais moralistas que os próprios cristãos, isso me pegou de surpresa algumas vezes, outros utilizam deste moralismo de boutique para proferir preconceitos que jamais poderia existir no meio reggae, que sempre lutou contra qualquer tipo de preconceito.


Enfim, gosto de reggae pra caralho todo mundo sabe, tenho vários amigos que frequentam e tocam em shows de reggae, mas isso não significa que eu não possa discordar de algumas coisas, escrevo este texto, pois acredito que ainda haverá alguém que insistirá em “retirar” do reggae todo esse aparato de pensamento obsoleto cristão (oposição entre bem e mal) ou desta mesmice que vem sendo cantada desde Bob Marley (Jah, liberdade, amor, humildade...). 

O reggae tem que lançar reflexões mais ousadas e, portanto, mais profundas, somente assim, este estilo que é relativamente novo, irá se expandir para além daquilo que está dado, e quebrar esses paradigmas que são perpetuados geração após geração, desde de bBob Marley, mas para isso, o reggae tem que romper com a sua origem, todavia me parece que os regueiros não gostam de rompimento, eles gostam de voltar às origens, a África os espera!

(Alex Domingos)



quinta-feira, 6 de março de 2014

Filosofia e incômodo







A filosofia incomoda, desde seu princípio na Grécia isso já acontecia, não é nenhuma novidade, creio que Sócrates foi o maior exemplo disto, já que ele foi acusado pelos atenienses de “impiedade” “foi acusado de não crer nos deuses da cidade e de corromper os jovens; mas, por trás de tais acusações, escondiam-se ressentimentos de todos os tipos e manobras políticas” (REALE, Giovanni, A história da Filosofia), Sócrates foi condenado a beber veneno, por conta disto.

Jamais ocorreria a condenação de Sócrates e sua morte, se ao filosofar, ele não incomodasse ninguém, historicamente hoje sabemos que ele através da filosofia, querendo ou não, Sócrates incomodava os gregos, tudo em plena praça pública, a famosa (Ágora), que a princípio se assemelha muito com a internet, hoje existem pessoas que consideram a internet como uma nova Ágora, ou seja, um espaço público de debates, porém as pessoas eram preparadas para poder ir para a Ágora debater, e não podiam dela participar quem não tivesse um mínimo de preparo, os próprios sofistas inimigos mortais de Sócrates, recebiam pagamentos para que preparassem as pessoas, e as tornassem mais eloquentes nos seus discursos.

Todavia, Sócrates jamais incomodava as pessoas somente por incomodar, está errado quem pensa que praticando um incomodo qualquer, esteja fazendo filosofia, a filosofia não é sair incomodando, a filosofia é um saber metódico e sistemático que pode incomodar.

Sócrates usava como método a dialética, que coincide com seu próprio dialogar, que possui dois momentos essências, a “refutação” e a “maiêutica”, ao fazê-lo Sócrates valia-se da máscara do “não-saber”, e da temida arma da “ironia”, cada um desses pontos deve ser adequadamente compreendido, porém utilizo deles para evidenciar que, Sócrates em seus diálogos com as pessoas, se colocava como alguém que nada sabia e queria somente aprender, porém logo após através da ironia refutava o saber do interlocutor, pronto, Sócrates o incomodava inevitavelmente, as pessoas não querem aprender e nem ter seus saberes refutados, repito, porque incomoda.

Isso é válido ainda nos dias de hoje, quando resolvemos filosofar e mostrar uma perspectiva diferente para as pessoas, muitas delas se zangam, ficam bravas, não sou um Sócrates ou Platão, mas tento filosofar, todavia, sei que ao passo que me pegar filosofando e através disso incomodar alguém, estarei feliz, pois fiz o papel de filósofo. 

Existem pessoas que se incomodam, mas tem a capacidade de aprender, ou seja, são inteligentes, outras se incomodam e se esperneiam porque não querem aprender, essas burras, ora, eu levo a sério a filosofia, não passei esse tempo todo estudando pra brincar de filósofo depois, pode até ser falta de polidez chamar uma pessoa de burra, porém nós filósofos não podemos colocar a polidez acima da filosofia.

Temos que aproveitar essa nova Ágora (internet), para promovermos diálogos e discussões que sejam relevantes, para que todos possam aprender juntos, os filósofos não sabem tudo, a diferença dele para algumas pessoas é que ele sabe disto, todos nós sabemos que contra a ignorância não se tem argumentos.

O próprio Sócrates dizia que filosofar não era para todos, era necessário estar grávido das ideias, pois, da mesma forma que uma mulher que está grávida no corpo tem necessidade de uma parteira para dar à luz, também a pessoa que tem a alma grávida de verdade tem necessidade de uma espécie de arte obstétrica espiritual, que ajude essa verdade a vir à luz, é essa exatamente a “maiêutica”.

Para incômodo das pessoas que não conseguem refletir, vou seguir o exemplo de Sócrates, enquanto eu viver irei filosofando pelos cantos.

(Alex Domingos)


REFERÊNCIAS

REALE, Giovanni, A história da Filosofia