terça-feira, 24 de julho de 2018

O riso de Nietzsche








Moro na minha própria casa,
nunca imitei ninguém,
E rio-me de todos os mestres
que nunca riram de si.
(Inscrição por cima da minha porta)
(Nietzsche, A gaia ciência, p,09)


O ser humano é provavelmente o único animal na face da terra que ri. Só por essa questão o riso já daria um belo tratado filosófico. Não foi à toa que muitos filósofos investigaram o riso com seriedade. Neste sentido, podemos encontrar uma teoria do riso na filosofia de Hobbes, Kant, Schopenhauer e Nietzsche. Em Nietzsche por exemplo, não encontramos uma obra inteira dedicada ao riso, mas durante as suas investigações o riso aparece e ganha espaço as vezes teorizado, as vezes de modo irônico nas suas sentenças.

O filósofo deixa claro a importância que o riso tem para a filosofia: “Eu chegaria mesmo a fazer uma hierarquia dos filósofos conforme a qualidade do se seu riso – colocando no topo aqueles capazes de uma risada de ouro” (Nietzsche, Além do bem e mal). Mas, qual é o filósofo que possui a risada de ouro? O sorriso de ouro é próprio daqueles que estende o riso de si para o mundo e é capaz não só de rir das pequenas coisas, mas também da fatalidade do cosmos. Isso é próprio de quem tem o sorriso brilhante, afirmar o cosmos em sua integralidade, rindo até mesmo do aspecto trágico da vida, amando (amor fati) a vida em seus aspectos “positivos” e “negativos”. Filósofos como Platão percebiam o riso como algo prejudicial para a pólis. 
 
Ao contrário, Nietzsche tece nas entrelinhas do riso a sua cosmologia. Desta forma, abre-se caminho para uma ética ancorada não na racionalidade, nem na religião, e sim no cosmos: - Temos assim uma ética cosmológica. Hegel acredita que o cosmos é ordenado pela racionalidade, “O real é racional e o racional é real”, neste sentido, as coisas caminham para um progresso contínuo e a ética está baseada unicamente na razão.

Para Schopenhauer o cosmos não é ordenado, e sim desordenado, isso quer dizer que não existe uma razão que organiza o universo, mas uma vontade cega e caótica que desorganiza o mundo, por isso a fama de pessimista de Schopenhauer, já que se o mundo não é governado pela razão e sim por uma vontade cega, significa que em algum momento as coisas irão dar errado. Nietzsche concorda em partes com Schopenhauer, para ele o cosmos é governado pela vontade cega e caótica, mas não qualquer tipo de vontade, a Vontade de Potência.

Nietzsche em sua obra Assim falava Zaratustra discorre sobre a vontade de potência por meio de imagens, como sendo uma vontade cosmológica que faz com que qualquer ser vivo passe a desejar cada vez mais o aumento da sua potência de agir, o pensador fala de forças e não de indivíduos. O filósofo lança a sua teoria da vontade de potência através da boca de Zaratustra que é aquele que consegue levar o riso ao seu mais alto grau de esplendor, nas suas palavras: “Fui eu próprio que canonizei o meu riso”. Ora, o riso é algo a ser canonizado, tamanha a sua importância, agora, não mais para a filosofia, e sim, para a vida. Lembrando que Cioran já dizia que para se ter um lugar honrado na filosofia era preciso ser comediante. O filósofo alemão não tinha dúvidas quanto a isso: "Sou um aprendiz do filósofo Dionísio e preferiria antes ser um sátiro do que um santo".  Porém,  o riso também possui o seu aspecto trágico: “Não é com ira que se mata, mas com riso”.

O riso em Nietzsche sempre me chamou a atenção por ser o pano de fundo onde o filósofo produz as suas imagens. Seu conteúdo é tão rico que jamais caberia num só texto, deixo aqui somente uma parcela do riso de Nietzsche. Termino com as palavras de Zaratustra: “Aquele que galga as mais altas montanhas ri de todas as tragédias lúdicas e de todas as tragédias sérias”.


(Alex Domingos)

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Por que ainda não pensamos?










“O mais grave é que nós ainda não pensamos: ainda não, apesar da situação do mundo continuamente da mais o que pensar”. (HEIDEGGER, 2005, p.126).


O mundo está continuamente nos dando o que pensar, isto é evidente, mas será que de fato pensamos? Ou só reproduzimos de forma binária certas informações que achamos legaizinhas? Por que pensamos aquilo que pensamos? Afinal de contas o que é pensar? Esta pergunta nos dá esperanças de que no decorrer do texto saibamos exatamente o que é esta atividade que, segundo Aristóteles, nos diferencia das outras espécies de animais. Não o farei. Ao invés disto, problematizarei determinadas questões e algumas formas de pensar e não-pensar para que assim, possamos nos situar dentro do espaço da dúvida, onde se dá o pensamento, de modo que o pensar tenha a chance de mostrar-se por si mesmo.

Não tenho dúvidas de que vivemos numa época de imbecilização e não numa época de reflexão, isso Heidegger já nos alertava em 1969 num de seus livros, cujo o título é: O que significa pensar? Neste livro, Heidegger lança a sua radical sentença: “ainda não pensamos”, visto que, pensar é algo diferente daquilo que “pensamos” fazer. Por hora, abandonarei a questão sobre o que é o pensar, para investigar de que forma estamos “pensando que pensamos”, sobretudo, os problemas que são colocados no nosso cotidiano.  Assim, ao invés de tentar responder o que é pensar, darei início a problemática refletindo sobre o que não é pensar. Aviso que tenho leves suspeitas para acreditar que cada vez mais a imbecilização das pessoas faz com que haja uma certa desautorização do pensamento crítico-filosófico. Não é raro fazerem algum tipo de chacota com quem insiste em sair da superficialidade. Nietzsche já havia previsto: “teremos contra nós os imbecis e a aparência”.

A reflexão que é feita pela maioria das pessoas hoje no Brasil é algo impulsionado pelo ódio e não pela racionalidade, isto é evidente. É isso que no final das contas gera a tão falada “polarização do pensamento”. Esse terreno político-brasileiro impulsionado pelo ódio ajuda a disseminar ainda mais o preconceito e a burrice que é alimentada por chavões do senso comum. Nesse cenário de polarização acredito que é preciso se posicionar, todavia, se posicionar somente para se posicionar é algo cafona. É preciso pensar com cautela antes de compartilhar aquela posição marota, e guardá-las de vez em quando se torna até um ato de nobreza. Temos que “ruminar” nossa opinião, coloca-la no gelo, pois, não basta reproduzir certas informações por simples necessidade de reprodução de conteúdo, pois desta forma, ainda estaremos no campo do não-pensamento e não reflexão, neste sentido, não exercitamos o pensamento, mas sim, a proliferação de informações carimbadas pelo nosso crivo como verdadeiras e necessárias.

Agimos de forma binária quando compartilhamos certos conteúdos que achamos “inteligentinhos” e “descontruidões”. O cérebro recebe o estimulo e a única forma de raciocínio é GOSTEI ou NÃO GOSTEI, APLAUDO ou NÃO APLAUDO, BOM ou RUIM, se gosto compartilho, se não, deixo passar. Em outros casos destilamos nosso ódio nos comentários, poucas vezes dialogamos com o que foi lido e contestamos alguns pontos, em outras palavras: abraçamos tudo ou recusamos tudo. Queremos concordar na integralidade, pois, discordar dá trabalho e muitas amizades são desfeitas por isso. 

Compartilhamos por que temos convicção de que aparentemente o conteúdo visualizado está correto, mas, nem sempre este conteúdo foi devidamente pensado, refletido. Isto ainda não é pensar, isto é reproduzir binariamente um conteúdo que foi idealizado por outra pessoa e que você considera correto, ele não passou pelo filtro do pensamento, mas pelo filtro do bom ou ruim, compreendem? Não pensamos de fato aquilo que foi lido, fazemos outra coisa. Às vezes nem buscamos investigar se a fonte é realmente confiável. Heidegger diria: “Ainda não pensamos”.

As coisas andam tão esquisitas que se você defender o artigo 3º da constituição brasileira que prega a construção de uma sociedade “livre e justa que garanta o desenvolvimento nacional e que possibilite a erradicação da pobreza e a marginalização, para reduzir as desigualdades sociais e regionais, ou se promovemos o bem-estar de todos sem preconceitos de origem, raça, cor, sexo ou qualquer tipo de discriminação”, logo somos acusados de esquerdopata ou rotulado de comunista por algum jovem afoito e abjeto. O mesmo acontece quando se critica algum posicionamento da esquerda brasileira, automaticamente os militantes te taxam de coxinha, pmdebista, conservador e coisas do tipo, ou seja, ou você aceita toda a cartilha daquele grupo do qual se identifica ou é rechaçado pelos seus próprios participantes, não com argumentos, mas, com ódio.

Discordar se tornou algo inaceitável na contemporaneidade. Pensar passou a ser tóxico. Experimente fazer uma crítica a uma determinada posição do feminismo, que na mesma hora aparece uma avalanche de mulheres que sequer leram Simone de Beauvoir para automaticamente te classificar como antifeminista, machista, te excluir da rede social ou você é visto até mesmo como alguém que reproduz ódio as mulheres, tudo isso por uma simples crítica a uma única posição do feminismo, por mais que saibamos o devido “lugar de fala”, parece que devemos a partir disto apoiar todas as atitudes do feminismo, da direita ou esquerda, não se pode divergir de nenhuma. O que me parece é que não podemos mais pensar a respeito das questões relacionadas aos movimentos ideológicos no Brasil, ou se aceita tudo desse ou daquele grupo, ou é colocado como inimigo Master do movimento. Claro que há exceções em todos os níveis, mas em grande parte das redes sociais é isso que se mostra nos últimos tempos.

É evidente que eu não estou exigindo que as pessoas passem a fazer reflexões monumentais a cada postagem nas redes sociais, ou na vida, não é isso que proponho, eu só estou tentando entender o modo como estamos fazendo o exercício da “reflexão e do pensamento” nos dias de hoje. Pensamos por meio de memes e emotions. A internet continua sendo esse grande espaço onde todos são especialistas em tudo. 

Acredito que a reflexão crítico-filosófica deve transcender qualquer tipo de ideologia no ato de pensar. A criatividade, a reflexão, a análise, não podem ser deixadas de lado quando falamos em pensamento.

Creio que para fazermos uma análise séria da situação política brasileira se faz necessário despregarmos os olhos de si mesmo para enxergarmos além. Mas, continuamos olhando para o hoje, falseando o passado e olhando para o passado, falseando o hoje. 

Sei que no meio desse turbilhão sempre encontraremos pessoas dispostas a refletir com cuidado essa obscura época que se instalou no Brasil, cujo o assunto do momento é a prisão do ex-presidente Lula, nessa altura do campeonato precisamos parar tudo e explicar o óbvio para as pessoas. Ir contra a prisão do ex-presidente não é ser petista ou socialista ou comunista. Ser contra a prisão do Lula é entender que esse processo desde o seu início foi um desfile de arbitrariedades. Quando se fala de Lula, PT ou Dilma a racionalidade de algumas pessoas logo se transforma em ódio e isso impede elas de pensarem melhor a realidade do Brasil.

O livro: Que significa pensar? Pode ser considerado uma introdução à filosofia de Heidegger por trazer algumas das principais características de seu pensamento. Porém, quando Heidegger fala em aprender a pensar ou “ainda não pensamos”, estas afirmações podem estar de acordo com o que o filósofo chamou de “fim da filosofia e o começo do pensar”. (STEIN, 2002, p.29). No Livro, Heidegger passeia em algumas formas de pensar para avaliar qual seria a mais “digna”. Para o filósofo o pensar surge como um verbo substantivo sugerindo atividade, exercício.

A filosofia é responsável pelo exercício do sentido. Sentido que tem a condição de possibilidade, ou seja, uma abertura para o real, desta forma, a filosofia se situa num espaço diferente do cálculo, por exemplo. Ela atua onde o cálculo não atinge. Se considerarmos que o pensamento é somente aquele capaz de dar sentido e que, de certa forma se opõe ao cálculo, então a ciência, sobretudo, aquela positivista da época de Heidegger, também não pensa, pois se reduzia a calcular, recolher dados e organizá-los. Para Heidegger o pensar seria também algo diferente disto.

A religião também não pensa, ao passo que necessita se fixar em muitos dogmas que dificultam a ação do pensamento. A maior parte das religiões são amparadas por um texto compreendido como sendo uma revelação divina, ou seja, seus adeptos precisam seguir certas normas morais e dogmas estabelecidos neste livro, o pensamento morre aí. Atualmente o Papa-pop faz malabarismos de marketing para angariar fiéis um tanto quanto impressionáveis.

O que eu posso dizer é que o pensar é algo raro nos dias de hoje. O pensar necessita brotar como algo inevitável, como facticidade, como uma urgência. Não pode ser mera repetição de fórmulas prontas. Pensar é correr riscos, é como dar um salto para o desconhecido. O pensar autêntico surge quando abandonamos fórmulas e até mesmo conteúdos teóricos, visto que, o fato de estarmos comprometidos com os resultados teóricos e com o pensamento de outros faz com que pouco a pouco abandonemos os nossos próprios pensamentos. De que adianta fazermos uma pesquisa que de antemão já sabemos o resultado?

As teorias se mostram indispensáveis e nos ajudam no ato de pensar, porém, para que possamos trilhar um caminho autêntico no campo da reflexão, precisamos sim, caminhar de encontro ao desconhecido, e para isso é necessário coragem. Pessoas que se limitam a repetir fórmulas e pensamentos prontos tem bastante por aí. 

Sigo nesta tentativa de fazer experimentos com o pensamento, sem medo de errar, pois, o salto para o pensar exige necessariamente quebras de paradigmas, rupturas, reconsideração de certezas e rompimento com pressupostos e epistemologias que estão cristalizadas. No meu entendimento o pensar caminha por essa via, a via do desconhecido. No final das contas, temos que insistir e persistir na pergunta que interroga pelo significado da palavra pensar.

 (Alex Domingos)

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Mustafary: os hipócritas são os outros!



Julgar e condenar moralmente é a vingança preferida das almas limitadas sobre aquelas que são menos que elas. (NIETZSCHE. Além do bem e do mal, p.57)
Um dos mais recentes personagens do comediante Marco Luque se chama Mustafary. Pra quem não o conhece ainda, Mustafary é um dreadlock, baiano e fundador do “Mustafaryanismo” que posta uma variedade de vídeos no youtube, mostrando o seu “íntimo contato” com a natureza e as suas peculiaridades. Algumas semanas atrás, comecei a prestar atenção em algumas de suas performances e confesso ter gostado do personagem.
Ultimamente tenho refletido o por que do personagem Mustafary nos parecer tão engraçado, afinal, por que rimos dele? Ora, é evidente que o personagem satiriza de maneira inteligente e bem humorada o comportamento da galerinha “alternativa” e dos drealocks que se dizem “amantes da natureza”, que ora clamam para que amemos a natureza, mas que no instante seguinte se irritam com a pedra, ou seja, não rimos tanto quando nos conta uma simples piada, tão pouco quando diz palavras erradas, mas, sobretudo, gargalhamos quando percebemos a sua hipocrisia, pois nos divertimos com ela, a hipocrisia alheia.
O humor sempre contou com a hipocrisia, isso não se pode negar, ela sempre esteve presente no palco, muito utilizada como um artifício do artista na comédia. Nesse sentido, estou convencido de que achamos Mustafary tão legal porque ele nos faz rir devido a sua notável hipocrisia. Contudo, o que significa hipocrisia? O que queremos dizer quando chamamos alguém de hipócrita?
Observando a etimologia da palavra, cuja a origem é grega - hupokrisía remete a ação de desempenhar um papel, a própria arte do ator – de interpretar. Mas, grande parte das pessoas ainda entende a hipocrisia como dissimulação (dissimulatio), ou melhor, fingir algum tipo de sentimento. Como nos vídeos do Mustafary que se coloca como alguém que ama incondicionalmente a natureza, porém, passados alguns minutos pragueja contra a mesma. O ato de “fingir” o sentimento de amor pela natureza é considerado por grande parte das pessoas como a manifestação da hipocrisia. Por uma lado Musta ama a natureza, por outro a amaldiçoa.
Amar a natureza somente em seus aspectos bonitos e prazerosos é fácil, contudo, basta a natureza mostrar a sua força nos impedindo de agir ou nos privando de algo, pronto! Ficamos zangados com ela, reclamamos sem parar do calor infernal! Logo depois, que frio insuportável! Rimos de Mustafary porque no fundo nos identificamos muito com ele. No dia a dia, nos deparamos com vários tipos que não se resumem somente a hipocrisia, mas que, de certa forma, se trata da insanidade da mente contemporânea, percebam: o serumaninho José, buzina para o carro da frente de seu Ford, pois o semáforo abriu, mas José se irrita quando alguém, na próxima sinaleira, buzina para ele pelo mesmo motivo. Esta prática soa como algo insano, não como hipocrisia.
Já Mustafary é um “rasta” diferente, visto que ele não aponta o dedo e acusa ninguém de “hipócrita” como muitos o fazem, nos dias de hoje quem dá atenção para alguém que faz esse tipo de coisa? Acusar moralmente alguém de hipócrita é uma prática ressentida cristã, digo tranquilamente que quem o faz, está negando a própria vida, já que quem aponta o dedo para chamar o outro de hipócrita está convencido de que está do lado dos “santos”, aqueles serumaninhos que não possuem hipocrisia, deste modo, ou está convencido de ser “santo” ou quer em seu íntimo se convencer disto, quem leu Genealogia da Moral sabe do que estou falando. Todavia, as perspectivas acerca da hipocrisia ainda estão submetidas a uma valoração ressentida da moral cristã, porque é resquício dela, porém, é possível reavaliá-la partindo de um ponto de vista filosófico.
Visto isso, ao contrário de que muitos pensam a hipocrisia não é um defeito da sociedade humana, digo que é o lubrificante das relações sociais, pois é muito difícil existir a sociedade sem hipocrisia. Nietzsche afirmou certa vez que “a verdade é uma mentira socialmente aceita”, quer dizer que a mentira nos ronda cotidianamente, porém como “verdade”. Neste sentido, não seria possível a vida comunitária se falássemos a “verdade” vinte e quatro horas por dia, ninguém nos suportaria, “o quanto de verdade podemos suportar?”. Imaginem um relacionamento baseado somente na “verdade”, acabaria nas primeiras vinte e quatro horas.
Existem sim, aqueles “lampejos de verdade”, e de repente somos incapazes de dizer que havíamos gostado de uma comida intragável, por exemplo. São poucas as exceções. Contudo, não há benefício nenhum em denunciar a hipocrisia alheia, por exemplo, não há nada demais em dizer que o rei está nu, quando todos já o sabem disso, e todos nós aceitamos que estamos fingindo não ver. Por isso, denunciar moralmente a hipocrisia é um ato sem sentido e pueril daqueles que não reconhecem a sua própria hipocrisia.
Seguindo o raciocínio do filósofo pré-socrático Heráclito de Éfeso, jamais poderíamos dizer que Mustafary é um hipócrita, tendo em vista que: “um homem não pode entrar no mesmo rio duas vezes, pois ao entrar pela segunda vez o homem já não é o mesmo e tão pouco o rio”.  Deste modo, se Mustafary afirma amar incondicionalmente a natureza numa hora e no instante seguinte a amaldiçoa é porque a impetuosidade das coisas e a velocidade da mudança (DEVIR), fez com que ele pensasse de outra maneira, ora somos seres em constante construção, onde há vida há possibilidade de mudança. Num instante Musta ama o serumaninho-cachorro no outro diz: “sai pra lá! Morre diabo”, seria essa uma prática totalmente válida segundo o raciocínio heraclitiano, visto que as águas do rio se passaram, fazendo-o mudar de opinião, em outras palavras a metamorfose ambulante (RAUL) aconteceu:
O hipócrita que representa sempre o mesmo papel deixa enfim de ser hipócrita. [...] Se alguém quer parecer algo, por muito tempo e obstinadamente, afinal lhe será difícil ser outra coisa. A profissão de quase todas as pessoas, mesmo a do artista, começa com a hipocrisia, com uma imitação do exterior, com uma cópia daquilo que produz efeito. Aquele que sempre usa a máscara do rosto amável terá enfim poder sobre os ânimos benévolos, sem os quais não pode ser obtida a expressão de amabilidade – e estes por fim adquirem poder sobre ele, ele é benévolo. (NIETZSCHE. HH, §51,).
A hipocrisia como dissimulação e fingimento se tornou um conceito sem sentido e ultrapassado como já foi dito, por isso temos que buscar um modo distinto de pensar isso que a sociedade chama hoje de “hipocrisia”. A intenção desse texto não é trocar um conceito fechado por outro, mas sim, abrir espaço para uma nova discussão acerca deste assunto, ampliando os horizontes. São de uma bobagem gigantesca aqueles discursos que pregam uma sociedade sem hipocrisia e blá blá, é de um idealismo infantil.
Por isso, não faço apologia a hipocrisia, em outras palavras, não peço para que sejam hipócritas, pelo contrário, procuro refletir a hipocrisia através de uma outra perspectiva, já que, a nossa sociedade não existe sem ela, o que nos resta é a consciência da nossa própria hipocrisia. Desta maneira, antes de apontarmos o dedo para o nosso vizinho num ato ressentido de chamá-lo de hipócrita, temos que voltar o olhar para dentro si, num ato reflexivo, visto que, quanto mais eu enxergo a minha hipocrisia, mais eu posso entendê-la e diminuí-la. Sartre afirmaria “o inferno são os outros”, eu diria: os hipócritas são os outros; nós quase nunca percebemos a nossa hipocrisia. Viva o Mustafaryanismo pae!
(Alex Domingos)


Referências
COSTA, Gustavo. Da Dissimulação à criação de si – aspectos da hipocrisia em Nietzsche. Revista Trágica: estudos sobre Nietzsche – 2º semestre de 2008 – Vol.1 – nº2 – pp.113-123.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humamo. Vol. II. 1997.

NIETZSCHE, Friedrich. Além do bel e do mal. Editora: Hermus. São Paulo.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

REGGAE E CRISTIANISMO!





Dias atrás me perguntaram: - Qual o problema do reggae? (Eu respondi como qualquer outro fã de reggae e leitor sério de Nietzsche responderia) - O “problema” do reggae está no fato, de que ele é ainda muito "cristão", é evidente que tem muito do cristianismo enraizado em suas letras.

Demorou bastante pra eu entender que o rastafarianismo não é outra coisa se não uma interpretação afro da “bíblia cristã”, ou seja, Jesus era “branco” demais para que os negros africanos acreditassem em sua divindade, por isso foi preciso “buscar” um redentor negro para que os africanos se reconhecessem na própria divindade.

Xenófanes foi um filósofo da época clássica que dizia: “Se os bois, cavalos e leões tivessem mãos ou se pudessem pintar e realizar as obras que os homens fazem com as mãos, os cavalos pintariam imagens dos deuses semelhantes aos cavalos e os bois semelhantes aos bois, e plasmariam os corpos dos deuses semelhantes ao aspecto que cada um deles tem”, assim como os etíopes, que são negros e têm o nariz achatado, ou os trácios que têm olhos azuis e cabelos ruivos, representam seus deuses com tais características. 

Pois bem, Xenófanes proferiu tudo isso para opor-se a visão antropomórfica que os gregos tinham das suas divindades, para ele; se houvesse um deus nem por figura nem por pensamento seria semelhante ao homem, em sua concepção deus seria o cosmos.

Deixamos Xenófanes um pouco de lado, para sublinhar que o cristianismo conseguiu se infiltrar em várias culturas, inclusive na cultura reggae, sendo reformulado é claro, mas sempre mantendo aquele ar sufocante da moral, nesse sentido o reggae não é diferente do cristianismo, mesmo não sendo aquele reggae propriamente rasta acaba levando certos valores cristãos do tipo: paz, amor, união, igualdade e humildade etc... Essas coisas que aprendi através da filosofia a suspeitar e olhar mais demoradamente e com um tremendo receio.

No meu caso o reggae foi importante durante uma parte significativa da minha vida, isso não posso negar, serviu-me como se fosse uma lente que me possibilitava interpretar o mundo de uma maneira diferente de como as outras pessoas o enxergavam, isso para mim era fascinante, outro olhar, outra perspectiva, tanto para a vida como para a música!

Porém, quando finalizei o curso de filosofia, percebi que o reggae já não era o suficiente para continuar explicando as velhas questões, se eu quisesse progredir, o pensamento teria que ir adiante, hoje discordo de alguns conceitos interiorizado pelo “estilo reggae”, alias, penso que discordar é uma prática saudável, as próprias pessoas que ouvem reggae sabe disto!

Hoje penso totalmente diferente do que pensava em outras épocas e tenho orgulho disto! A filosofia nos permite exatamente isto, ver diferentemente do que se vê e pensar diferentemente daquilo que se pensa ou do que se pensou; isto é indispensável para continuarmos a olhar o mundo e refletir!

Sou do tipo de gente que acredita que tudo o que você pensa tem haver com as coisas que acontece ou aconteceu com você, cá entre nós, faço a crítica porque já vivi o reggae, o conheço por experiência, sendo assim faço a crítica também por honestidade ao próprio reggae, por gostar do reggae em excesso.

Contudo, algumas pessoas podem estar se perguntando “qual o problema do reggae ter inserido em sua cultura um caráter cristão? Isso não seria positivo para o próprio reggae?”, atesto que essa pode ser o maior engodo que poderia ter acontecido ou nascido com o reggae, tanto faz; o fato é que introduziu em sua cultura uma moral niilista que nega a vida. Assim como o cristianismo, o reggae também é niilista em sua raiz, isto eu denuncio, porém, nada de novo temos aqui.

A maior parte das músicas reggae que ouço hoje em dia é um apelo moralista barato, no sentido de que existe um padrão de conduta que a existência deve se adequar se não é logo taxado de hipocrisia por alguma “alma santa”, Quá! 

Coisas como esta empobrece o próprio “estilo reggae”, que pode ser sim mais do que isto. Trocando em miúdos, continuamente as letras reggae vem apresentando um “lindo” esquema mental que escraviza a própria vida (moral), isto o cristianismo já faz há séculos, ou seja, se o cristianismo é o platonismo para o povo, o reggae é o cristianismo para os “descolados”.

Encontra-se ainda regueiros que são mais moralistas que os próprios cristãos, isso me pegou de surpresa algumas vezes, outros utilizam deste moralismo de boutique para proferir preconceitos que jamais poderia existir no meio reggae, que sempre lutou contra qualquer tipo de preconceito.


Enfim, gosto de reggae pra caralho todo mundo sabe, tenho vários amigos que frequentam e tocam em shows de reggae, mas isso não significa que eu não possa discordar de algumas coisas, escrevo este texto, pois acredito que ainda haverá alguém que insistirá em “retirar” do reggae todo esse aparato de pensamento obsoleto cristão (oposição entre bem e mal) ou desta mesmice que vem sendo cantada desde Bob Marley (Jah, liberdade, amor, humildade...). 

O reggae tem que lançar reflexões mais ousadas e, portanto, mais profundas, somente assim, este estilo que é relativamente novo, irá se expandir para além daquilo que está dado, e quebrar esses paradigmas que são perpetuados geração após geração, desde de bBob Marley, mas para isso, o reggae tem que romper com a sua origem, todavia me parece que os regueiros não gostam de rompimento, eles gostam de voltar às origens, a África os espera!

(Alex Domingos)



quinta-feira, 6 de março de 2014

Filosofia e incômodo







A filosofia incomoda, desde seu princípio na Grécia isso já acontecia, não é nenhuma novidade, creio que Sócrates foi o maior exemplo disto, já que ele foi acusado pelos atenienses de “impiedade” “foi acusado de não crer nos deuses da cidade e de corromper os jovens; mas, por trás de tais acusações, escondiam-se ressentimentos de todos os tipos e manobras políticas” (REALE, Giovanni, A história da Filosofia), Sócrates foi condenado a beber veneno, por conta disto.

Jamais ocorreria a condenação de Sócrates e sua morte, se ao filosofar, ele não incomodasse ninguém, historicamente hoje sabemos que ele através da filosofia, querendo ou não, Sócrates incomodava os gregos, tudo em plena praça pública, a famosa (Ágora), que a princípio se assemelha muito com a internet, hoje existem pessoas que consideram a internet como uma nova Ágora, ou seja, um espaço público de debates, porém as pessoas eram preparadas para poder ir para a Ágora debater, e não podiam dela participar quem não tivesse um mínimo de preparo, os próprios sofistas inimigos mortais de Sócrates, recebiam pagamentos para que preparassem as pessoas, e as tornassem mais eloquentes nos seus discursos.

Todavia, Sócrates jamais incomodava as pessoas somente por incomodar, está errado quem pensa que praticando um incomodo qualquer, esteja fazendo filosofia, a filosofia não é sair incomodando, a filosofia é um saber metódico e sistemático que pode incomodar.

Sócrates usava como método a dialética, que coincide com seu próprio dialogar, que possui dois momentos essências, a “refutação” e a “maiêutica”, ao fazê-lo Sócrates valia-se da máscara do “não-saber”, e da temida arma da “ironia”, cada um desses pontos deve ser adequadamente compreendido, porém utilizo deles para evidenciar que, Sócrates em seus diálogos com as pessoas, se colocava como alguém que nada sabia e queria somente aprender, porém logo após através da ironia refutava o saber do interlocutor, pronto, Sócrates o incomodava inevitavelmente, as pessoas não querem aprender e nem ter seus saberes refutados, repito, porque incomoda.

Isso é válido ainda nos dias de hoje, quando resolvemos filosofar e mostrar uma perspectiva diferente para as pessoas, muitas delas se zangam, ficam bravas, não sou um Sócrates ou Platão, mas tento filosofar, todavia, sei que ao passo que me pegar filosofando e através disso incomodar alguém, estarei feliz, pois fiz o papel de filósofo. 

Existem pessoas que se incomodam, mas tem a capacidade de aprender, ou seja, são inteligentes, outras se incomodam e se esperneiam porque não querem aprender, essas burras, ora, eu levo a sério a filosofia, não passei esse tempo todo estudando pra brincar de filósofo depois, pode até ser falta de polidez chamar uma pessoa de burra, porém nós filósofos não podemos colocar a polidez acima da filosofia.

Temos que aproveitar essa nova Ágora (internet), para promovermos diálogos e discussões que sejam relevantes, para que todos possam aprender juntos, os filósofos não sabem tudo, a diferença dele para algumas pessoas é que ele sabe disto, todos nós sabemos que contra a ignorância não se tem argumentos.

O próprio Sócrates dizia que filosofar não era para todos, era necessário estar grávido das ideias, pois, da mesma forma que uma mulher que está grávida no corpo tem necessidade de uma parteira para dar à luz, também a pessoa que tem a alma grávida de verdade tem necessidade de uma espécie de arte obstétrica espiritual, que ajude essa verdade a vir à luz, é essa exatamente a “maiêutica”.

Para incômodo das pessoas que não conseguem refletir, vou seguir o exemplo de Sócrates, enquanto eu viver irei filosofando pelos cantos.

(Alex Domingos)


REFERÊNCIAS

REALE, Giovanni, A história da Filosofia

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Agnosticismo e Ateísmo




Diferentemente do que se acredita, agnosticismo e ateísmo não são a mesma coisa, existe um abismo entre os dois. Quase sempre nas discussões ouvimos as pessoas apresentarem muitas opiniões formadas pelo senso comum, ideias rasas, comprovando que ainda existe muita confusão em torno destes dois termos, isso acaba gerando algumas especulações sem fundamento. 

Devido a isto, tentarei explica-los de uma forma simples e compreensível, o texto servirá como uma introdução, para despertar o interesse do leitor por obras que decorram mais amplamente sobre o tema proposto. O agnosticismo remete a uma questão de cunho epistemológico, ou seja, ocorre no campo do conhecimento, o ateísmo acontece no campo da crença, essa é a diferença básica que podemos destacar sobre esses dois aspectos, adiante explicaremos melhor essas afirmações.

Sabemos que agnosticismo provém do grego gnose (conhecimento) juntamente com o prefixo negativo “a”, ou seja, (não conhecimento). O agnóstico aponta para a impossibilidade da razão humana conhecer aquelas “realidades” que sejam metafísicas, entre elas a alma, imortalidade, liberdade e por conseguinte dEUS, pois não é possível verificar empiricamente essas “realidades” e obter um conhecimento seguro sobre elas, de tal maneira que não se pode levar dEUS para o laboratório e “colher” um conhecimento cientifico, para provar sua existência.

Kant alega no inicio da sua obra, “A critica da razão pura”, que todo conhecimento começa pela experiência, se o conhecimento deriva da experiência, como poderemos ter um conhecimento seguro destas realidades imateriais? Segundo sua analise, buscar por questões metafisicas faz parte da natureza do homem, porém essas “realidades” só podem ser pensadas, mas nunca conhecidas por meio de nossa razão.

O agnóstico não nega a possibilidade da existência de deus, simplesmente alega que se existe um dEUS, o homem não poderá conhecê-lo através da razão, se deus existe ele é incognoscível e por isso não vê motivos para acreditar nas premissas à cerca de deus, ou, pode apesar disso, acreditar em algum dEUS por motivos de fé, o que o tornaria fideísta. Ultimamente assisti a um vídeo no youtube de um rapaz chamado (PIRULA) descrevendo o agnosticismo de uma maneira aparentemente correta, mas que no fundo não tem sentido algum. No vídeo ele radicaliza suas posições, impondo o agnosticismo às demais pessoas.

Afirma ele que, se uma determinada pessoa, não sabe se deus existe, ela automaticamente passa a ser agnóstica por causa da etimologia (não-conhecimento), isso é um absurdo sem tamanho, tendo em vista que o agnóstico não tem obrigação nenhuma em saber e provar a a existência de uma entidade metafísica, uma vez que ele afirma a NÃO possibilidade de um saber ou de um conhecimento sobre a existência de deus. 

O agnóstico ao ser interrogado se sabe ou não se deus existe, diria: “Se existe deus ou deuses jamais poderemos saber, ou conhecer”, é ingênuo da parte do autor do vídeo, perguntar para alguém que não vê possibilidade de um conhecimento metafísico, se essa pessoa sabe da existência dessas entidades metafísicas, forjando ainda uma resposta, é como se eu perguntasse os números da mega sena, para uma pessoa que afirma que não é capaz de conhecer os números da mega sena antes do sorteio, como eu falei sem sentido algum.

Algumas pessoas chegam ao extremo de argumentar da seguinte forma: “se as pessoas não podem conhecer deus através da razão, logo todas elas são agnósticas, pois não tem o conhecimento sobre a metafisica”, esse argumento também não procede, comete o mesmo erro do rapaz do vídeo, ser agnóstico é afirmar e ter consciência que não podemos conhecer objetos metafísicos através da razão. “O agnosticismo é claramente uma atitude hermenêutica reativa dentro de um ambiente filosófico que tematizou o conhecimento metafísico”. (ROSA, José, Em torno do Agnosticismo, pg-04, 1995). O agnóstico é uma posição de indiferença.

Se não fosse assim, da mesma forma com que se afirma esta sentença, outra pessoa poderia afirmar que: “Podemos sim ter um conhecimento racional de deus”, logo inverteria a sentença, “Se as pessoas podem conhecer deus através da razão como eu, então todas elas são teístas”, que seria outro absurdo, aliás, como todas essas generalizações.

O agnosticismo se tornou uma típica modinha nas rodas de conversas nos dias de hoje, para alguns basta tomar duas cervejas e ler a etimologia da palavra “agnóstico” para revelar sua mais “nova forma intelectual de pensar”, isso se torna um problema, pois será essa a mesma pessoa que irá levar a diante muitos preconceitos gerados por falta de leituras mais aprofundadas sobre o assunto.

O grande erro do agnosticismo é constatar a impossibilidade de conhecimentos metafísicos, se utilizando da própria metafísica para legitimar sua impossibilidade, quem leu Kant sabe do que estou falando, o próprio Hegel descobriu isto após ler a critica da razão pura, sentiu ele um odor metafísico vindo de lá. Hegel teria dito para Kant.... ”Kant isto ai que está fazendo na crítica da razão pura ainda é metafísica”, o agnosticismo é contraditório em sua base, se contentem com isso agnósticos de plantão.

O ateísmo como também o agnosticismo é somente uma classificação, acerca do posicionamento ou estado intelectual do individuo em relação à ideia de deus, logo, o ateísmo não possui natureza análoga às religiões teístas, não adianta espernear. Etimologicamente, a palavra ateu é formada pelo prefixo “a” que denota ausência e pelo radical grego théos, que significa deus, ou seja, a palavra ateu pode significar ausência de deus ou ausência de teísmo.

 “É importante salientar que, comumente, a maioria dos ateus, quando se refere à sua posição, diz apenas que não acredita em deus/deuses. Isso não está incorreto, mas na verdade, com isso quer dizer que não acredita na existência de deus/deuses. Afirmar apenas “não acredito em deus”, pode dar margem à interpretação errônea de que a pessoa em questão acredita em sua existência, mas é contra deus, contra seus mandamentos, ou então que não lhe da crédito, que o difama, fato este que, não raro, dá origem a vários preconceitos em relação à posição ateísta” (CACIAN, André, Os fundamentos do Ateísmo, pg.01).

Até aqui parece ser simples as questões sobre o ateísmo, até creio que seja, porém as pessoas gostam de criar um punhado de definições, muitas delas sem necessidade nenhuma, entre elas estão: ateísmo-positivo, ateísmo-negativo, agnóstico-ateísta, neo-ateísta, ateísmo-implícito, ateísmo-explícito, até mesmo ateísta-forte e ateísta-fraco e por ai vai.

A cada dia se cria uma nova definição para tentar explicar esse fenômeno chamado ateísmo, não vamos tentar defina-las desse modo, pois, penso que não adianta ficar criando demasiadas modalidades de ateus para tentar explicar tudo, mas que, acabam não explicando nada, isso somente deixa as pessoas ainda mais confusas à cerca do assunto. No meu modo de ver, a definição de ateu pode ser mais pragmática, já que na maior parte das vezes encontramos somente dois tipos de ateus: os ingênuos e os inteligentes.

Os ateus ingênuos são aqueles seres que afirmam categoricamente a NÃO existência de deus, que aparece na frase (deus não existe), estes ateus para mim, não são diferentes daqueles religiosos que acreditam em deus, eles também são tão dogmáticos quanto, pois, da mesma forma com que o religioso não consegue provar a existência de deus, este ateu, também não conseguirá provar a sua inexistência, eles enchem a boca para negar a existência de deus e dizer que deus não existe, pensando que isto os tornam mais “inteligentes”, não se diferenciando muito daqueles que creem na existência deus, estes ateus geralmente são fervorosos e pregam como os religiosos.

O ateu inteligente jamais afirmaria que deus não existe, ele simplesmente não aceita as preposições teístas como verdadeiras, para ele deus trata-se apenas de uma hipótese metafísica sem comprovações, ele contesta as afirmações teístas que tentam explicar a realidade, o ateu inteligente não é dogmático e não se fixa na inexistência de deus, nesse caso o ateísmo é somente uma ausência de crença nesse tipo de entidade sobrenatural, ele escuta as premissas teístas, avalia e não vê motivos para acreditar nelas.

A inteligência não permite o ateu de negar categoricamente a existência de deus, assim ele não tem obrigação nenhuma de provar sua inexistência, “na realidade, o dever de provar a veracidade recai sobre os ombros daqueles que afirmam algo, se um individuo diz “deus existe”, fica sobre ele a responsabilidade de provar a veracidade de sua preposição, ou seja, provar a existência de deus. Se falhar em prová-la, então não teremos motivos para aceitá-la e, assim, a descrença torna-se plenamente justificada”. (CACIAN, André, Os fundamentos do Ateísmo, pg.07). Como diria Raul Seixas: Já passei por todas as religiões filosofias, políticas e lutas. Aos onze anos de idade eu já desconfiava da verdade absoluta. 

(Alex Domingos)


Referências

CACIAN, André, Os fundamentos do Ateísmo.
ROSA, José, Em torno do Agnosticismo, 1995.
KANT, A crítica da razão pura, 1987.

Vídeo do Pirula

                                           http://www.youtube.com/watch?v=LVkklTe77Ww

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Antologia "Palavras desavisadas de tudo" conta com a participação de três poemas do Mentecriva!



         

Dia 17 de Agosto ocorreu o lançamento da antologia "Palavras desavisadas de tudo" em comemoração aos trinta anos da editora Scortecci, o livro editado em dois volumes, recebeu poesias de diversos lugares do Brasil, entre elas tive a grande satisfação de representar Campo Grande com três poemas, alguns inclusive foram já publicados pelo blog Mentecriva! Confira um deles.

Um dos motivos.

Escrevo para curar-me;
Exorcizar-me;
Espantar meus demônios e anjos;
Retirar o peso sobre meus ombros;
Escrever me torna um constante convalescente;
Nos dias tristes, nos dias contentes;
Escrever é comprar um ingresso para o desconhecido;
Uma folha em branco e o raciocínio colorido;
As palavras tem que ter a medida certa;
Nem mais, nem menos, para expressar amor;
Escrever é ter dor;
Se meu poema não chegou até você;
É porque não é pra você ser leitor.